MENSAGEM DO BISPO DE MINDELO – QUARESMA 2026
Colocar o Mistério de Deus no centro da vida
Queridos irmãos e irmãs,
Uma vez mais temos como bênção este tempo para nos deixarmos tocar pelo amor de Deus, que nos plasma a partir do coração e nos lança renovados no campo da vida.
Assim como a vida não pode ser reduzida a um círculo vicioso nem é um movimento espiral que nos mantém retidos na mesma estação; também a Quaresma não é repetição anual das tradicionais práticas religiosas e cumprimento dos ritos penitenciais que a Mãe Igreja recomenda. Ainda mais, quando alguns nem têm consciência do significado espiritual que têm essas práticas como o jejum, a esmola e a oração. Estas quando bem vividas e ajustadas, são um excelente meio de aproximar de Deus e dos irmãos.
Esta é uma oportunidade de voltar para Deus, aquele que nunca se afasta de nós; é uma interpelação a saborear de maneira nova e profunda a sua ternura e misericórdia. Porque Deus é um Pai que se inclina sobre os seus filhos e lhes revela o seu coração aberto e acolhedor. Assim escreveu o Papa Leão XIV na sua Mensagem para Quaresma 2026: «A Quaresma é o tempo em que a Igreja, com solicitude maternal, nos convida a recolocar o mistério de Deus no centro da nossa vida, para que a nossa fé ganhe novo impulso e o coração não se perca entre as inquietações e as distrações do quotidiano.» Aqui está um belo programa para estes 40 dias que nos levam à Páscoa: deixar que o mistério de Deus nos toque e venha para o centro da nossa vida.
O desafio lançado é o de uma Quaresma com Deus e com o próximo, sobretudo os últimos, os «descartados» da sociedade, como Francisco costumava dizer. Somos chamados a viver intensamente a escuta da Palavra daquele que tem palavras de vida eterna (Jo 6, 68). A diocese de Mindelo escolheu viver este ano pastoral afinando a nossa sensibilidade para a escuta e o acolhimento. A escuta de Deus presente na comunidade que celebra o seu Mistério Pascal e a escuta dos gritos dos irmãos na aflição, em quem o Senhor se revê preferencialmente: «Entre as muitas vozes que passam pela nossa vida pessoal e social, as Sagradas Escrituras tornam-nos capazes de reconhecer aquela que surge do sofrimento e da injustiça, para que não fique sem resposta» (Leão XIV, ibidem).
Este é um tempo de treino e exercícios espirituais, que busca como resultado a nossa conversão interior, até nos habituarmos a viver e a caminhar de modo ordenado segundo o Evangelho de Jesus. É neste espírito que se pode entender os apelos às renúncias nas suas múltiplas formas. E o Santo Padre faz questão de lembrar que o jejum é útil para discernir e ordenar os “apetites”, para manter vigilante a fome e a sede de justiça. E na sequência disso, como ponto de esforço para esta Quaresma, ele sugere um jejum ou abstinência de palavras que atingem e ferem o nosso próximo; uma renúncia de palavras mordazes, de juízo temerário, de falar mal dos outros, sobretudo quando estão ausentes. Aliás, assim, exortava o Apóstolo Paulo os Efésios (4,29): nenhuma palavra desagradável saia da vossa boca, mas apenas a que for boa, que edifique, sempre que necessário, para que seja uma graça para aqueles que a escutam. Vamos procurar que à nossa volta, em todos os ambientes em que nos movemos, na família, na comunidade, na sociedade, na política, no desporto e no lazer, etc., só haja espaço para palavras que despertam confiança, alegria, esperança e paz.
No espírito de partilha solidária no qual temos vindo a crescer por toda a diocese, este ano a nossa Renúncia quaresmal será destinada, em parte, para a Fundação João Paulo II para o Sahel, região na qual nos encontramos e que tem sido palco de muito sofrimento; esta sub-região da África Ocidental, de há alguns anos a esta parte, está mergulhada numa crise de violência, de terrorismo, de perseguição religiosa indescritível, deixando muitas famílias e comunidades em situação lastimosa. Queremos ajudar a Fundação a apoiar os projectos das Caritas do Mali, do Níger e da Burkina-faso que procuram atender às necessidades urgentes dessas populações. Outra parte vai para os nossos irmãos da Paróquia de São João Batista – Porto Novo que estão sem igreja paroquial (a Igreja ameaçava ruína e foi demolida para dar lugar a uma nova); este sonho da comunidade está em fase inicial de construção e a nossa ajuda faz a diferença.
A Renúncia quaresmal de 2025 destinada à aquisição de macas para transportar os doentes que são evacuadas dos locais de difícil acesso do interior de Santo Antão e para finalizar o projecto Fratelli Tutti – Centro da Caritas Diocesana, totalizou 1. 059 922$00 (um milhão, cinquenta e nove mil, novecentos e vinte e dois escudos). Estamos profundamente gratos pela generosidade crescente dos fiéis das nossas paróquias. Deus abençoará aqueles que dão com alegria. «Dá ao Altíssimo, segundo o que Ele te tem dado, porque o Senhor retribuirá a dádiva, recompensar-te-á de tudo, sete vezes mais» (cf. Ben-Sira 35, 9-10). Continuamos a apelar à vossa generosidade e quero valorizar a forma organizada como as paróquias estão a dinamizar esta campanha de solidariedade.
Que a nossa Quaresma seja um verdadeiro caminho de escuta e acolhimento.
Deus vos abençoe a todos!
Mindelo, 22 de fevereiro de 2026, 1º Domingo da Quaresma
† Ildo Fortes, Bispo de Mindelo

MENSAGEM DO BISPO DE MINDELO – QUARESMA 2025
De rosto alegre no caminho de esperança
…faz todas as tuas oferendas com semblante alegre (Ben sira 35, 8)
Queridos irmãos e irmãs
Este ano vivemos a Quaresma em contexto jubilar, o que reforça a sua dimensão de alegria e esperança como caminho para a Páscoa. O olhar voltado para a Cruz do Senhor e a alegria da Ressurreição, suscitam a nossa conversão e animam a nossa caminhada de aproximação a Deus e aos irmãos. O Apóstolo Paulo nos exorta assim: «não recebais em vão a sua graça. Porque Ele diz: «No tempo favorável, Eu te ouvi; no dia da salvação, vim em teu auxílio». (cf. 2 Cor 6, 1 -2). O Jubileu é uma ocasião favorável, uma abundância de graças e bênçãos a não desperdiçar. No tempo quaresmal renovamos o bom combate ao espírito do mal que se trava no silêncio do deserto interior e com gestos significativos; alegra-nos a certeza do abraço misericordioso de Deus e a esperança que não engana (cf. Rm 5, 5).
Juntos, em espírito sinodal, encetamos esta viagem pessoal e comunitária. Importa saber aonde queremos chegar, porque, quem não sabe para onde vai, qualquer caminho serve. De cabeça erguida e rosto alegre, não angustiados, caminhamos em direcção à Páscoa da libertação, da fraternidade e da justiça. «Nesta Quaresma, Deus pede-nos que verifiquemos se nas nossas vidas e famílias, nos locais onde trabalhamos, nas comunidades paroquiais ou religiosas, somos capazes de caminhar com os outros, de ouvir, de vencer a tentação de nos entrincheirarmos na nossa autorreferencialidade e de olharmos apenas para as nossas próprias necessidades. Perguntemo-nos diante do Senhor se somos capazes de trabalhar juntos ao serviço do Reino de Deus, como bispos, sacerdotes, pessoas consagradas e leigos; se, com gestos concretos, temos uma atitude acolhedora em relação àqueles que se aproximam de nós e a quantos se encontram distantes; se fazemos com que as pessoas se sintam parte da comunidade ou se as mantemos à margem» (Papa Francisco, Mensagem para a Quaresma 2025).
A Páscoa de amor que o Senhor fez acontecer para nós, é atualizada hoje com as nossas escolhas, caminhos e acções concretos que dignificam a nossa condição dos filhos e filhas de Deus. ‘A oração, a esmola e o jejum são exercícios que nos conduzem a um movimento de abertura à graça de Deus, ao amor aos irmãos e nos libertam dos ídolos que nos tornam pesados e dos apegos que nos aprisionam’. Como escreveu o Papa para a homília desta quarta-feira de Cinzas: «aprendamos por meio da esmola a sair de nós mesmos para partilhar as necessidades uns dos outros e alimentar a esperança de um mundo mais justo; aprendamos por meio da oração a descobrir-nos necessitados de Deus ou, como dizia Jacques Maritain, “mendigos do céu”, para alimentar a esperança de que, nas nossas fragilidades e no fim da nossa peregrinação terrena, nos espera um Pai de braços abertos; aprendamos por meio do jejum que não vivemos apenas para satisfazer necessidades, mas que temos fome de amor e de verdade, e só o amor de Deus e de uns pelos outros podem verdadeiramente saciar-nos e dar-nos esperança num futuro melhor».
A Renúncia Quaresmal deste ano, após ter ouvido o Conselho Presbiteral e outros sacerdotes, será, uma parte para o Corpo de Bombeiros Municipais de São Vicente, que segundo nos apercebemos durante a visita pastoral, recentemente efectuada, carecem de vários recursos e materiais básicos para assistir os muitos acidentados que permanentemente ocorrem; na mesma linha, queremos contribuir para a aquisição de macas que são tão necessárias para transportar as pessoas que têm de ser evacuadas dos locais de difícil acesso do interior de Santo Antão; outra parte destina-se ao Projecto Fratelli Tutti, um Centro da Caritas Diocesana, em fase de construção e que se destina a acompanhar jovens mães e mulheres em situação de risco, idosos e crianças.
O resultado da Renúncia Quaresmal de 2024 em favor das vítimas da guerra, infelizmente ainda em curso, entre Israel e Hamas, foi de 798.768$00. Agradecemos a generosidade dos fiéis das nossas paróquias que têm vindo a crescer ano após ano. Como diz a Escritura: «dá glória a Deus com generosidade… faz todas as tuas oferendas com semblante alegre. Dá ao Altíssimo, segundo o que Ele te tem dado; dá com ânimo generoso, segundo as tuas posses, porque o Senhor retribuirá a dádiva, recompensar-te-á de tudo, sete vezes mais (cf. Ben-Sira 35, 7-10).
Que a nossa Quaresma seja um caminho de esperança, percorrido com alegria ao encontro do Senhor. Assim, Maria, Mãe da Esperança e da Alegria nos ajude!
Mindelo, Quarta-Feira de Cinzas, 05 de março de 2025
† Ildo Fortes, Bispo de Mindelo

Abertura do Jubileu Ordinário de 2025 na Diocese
Peregrinos de Esperança
Queridos padres e diáconos, irmãos e irmãs.
Que a alegria da proximidade do Nascimento do Salvador seja a nota que soa nos vossos corações!
Aproxima-se o início do Jubileu Ordinário de 2025 proclamado pelo Papa Francisco na Bula Spes non confundit. Este Jubileu marcado pela esperança, é uma proposta de caminho espiritual e comunitário a percorrermos juntos para uma maior santidade de vida e renovado compromisso e testemunho de amor cristão. No Ano Jubilar, seremos chamados a ser sinais palpáveis de esperança para muitos irmãos e irmãs que vivem em condições de dificuldade.
Na Bula do Santo Padre e nos documentos emanados dos Dicastérios competentes encontramos as orientações para as celebrações de abertura e encerramento do Ano Santo quer em Roma quer nas dioceses e é sobre essa abertura que vos escrevo. Diz o Papa: «estabeleço ainda que, no domingo 29 de dezembro de 2024, em todas as catedrais e concatedrais, os Bispos diocesanos celebrem a Santa Missa como abertura solene do Ano Jubilar, segundo o Ritual que será preparado para a ocasião… A peregrinação, desde a igreja escolhida para a concentração até à catedral, seja o sinal do caminho de esperança que, iluminado pela Palavra de Deus, une os crentes» (Spes non confundit, 6).
Assim, faremos a abertura do Jubileu na Diocese de Mindelo no dia 29 de dezembro, Festa da Sagrada família, na Pró-Catedral de N. S. da Luz; haverá uma única Missa nessa manhã (10h30), presidida pelo bispo e concelebrada por todos os sacerdotes da ilha, com a presença dos religiosos (as) e todos os fiéis. Bem sabemos que a nossa realidade insular não permite aos padres de outras ilhas, marcarem presença, mas se possível, que enviem alguns representantes por paróquias (fiéis, diáconos e religiosos), para assim nos sentirmos em maior comunhão diocesana. A celebração iniciará na Capela de Maria Auxiliadora (Escola Salesiana) e é precedida de uma conferência / catequese alusiva à explicação do Ano Santo e às Indulgências plenárias, pelas 9 horas.
Na sequência disto, com um Decreto que faremos chegar brevemente, vamos indicar para cada Ilha uma Igreja que será Igreja Jubilar. Para ela hão-de os fiéis peregrinar com esperança e confiança para obterem as graças e as indulgências próprias do ano jubilar. A indulgência permite-nos descobrir como é ilimitada a misericórdia de Deus. Não é por acaso que, na antiguidade, o termo «misericórdia» era cambiável com o de «indulgência», precisamente porque pretende exprimir a plenitude do perdão de Deus que não conhece limites» (cf Spe non confundit, 23). Nas Vigararias, os sacerdotes organizem-se para que na Igreja Jubilar, aqueles que aí acorrerem em peregrinação e oração, possam ser acolhidos, participar da Eucaristia e ser atendidos em Confissão.
Oportunamente e em ordem a que todos os fiéis possam viver mais intensamente este Jubileu, havemos de partilhar outros subsídios e instrumentos que visam mais compreensão e vivência do Ano Santo. Os pastores tenham o cuidado de ajudar as comunidades e entrar verdadeiramente nesta dinâmica da Igreja Inteira, promovendo nas paróquias formações, catequeses, peregrinações e iniciativas pastorais concretas que possam ajudar os fiéis neste sentido.
Com muita estima no Senhor e votos de um Santo Natal
Mindelo, 19 de dezembro de 2024
† Ildo Fortes
Bispo de Mindelo

DIA INTERNACIONAL DA FAMÍLIA 2024
VAMOS HONRAR A FAMÍLIA HUMANA
Mais uma vez celebramos o Dia Internacional da Família, uma ocasião especial e uma boa oportunidade para contemplarmos o dom e a bênção que é esta instituição divina. É da vontade de Deus Pai e Criador, honrarmos, respeitar e promover a família bem como os seus genuínos e edificantes valores.
Palavras sábias encontramos no Livro do Ben Sira (Cap. 3) sobre a família, que vale a pena recordar, pois se inscrevem entre as máximas que manda o Senhor. Vejamos este catálogo de exortações:
1. Ouvi, filhos, os conselhos do vosso pai, procedei em conformidade, para serdes salvos.
2. Porque o Senhor glorifica o pai acima dos filhos e estabelece sobre eles a autoridade da mãe.
3. O que honra o pai alcança o perdão dos pecados,
4. e quem honra a sua mãe é semelhante ao que acumula tesouros.
5. Quem honra o pai encontrará alegria nos seus filhos e será ouvido no dia da sua oração.
6. Quem glorifica o pai gozará de longa vida e quem obedece ao Senhor consolará a sua mãe.
7. Quem teme o Senhor honrará seu pai e servirá, como a seus senhores, aqueles que lhe deram a vida.
8. Honra teu pai com palavras e ações, para que desça sobre ti a sua bênção.
9. A bênção do pai fortalece a casa dos filhos, e a maldição da mãe arrasa a até aos alicerces.
10. Não te glories com a desonra de teu pai, pois a sua desonra não poderia ser glória para ti.
11. A glória de um homem vem da honra de seu pai, e é vergonha para os filhos uma mãe desonrada.
12. Filho, ampara o teu pai na velhice, não o desgostes durante a sua vida;
13. mesmo se ele vier a perder a razão, sê indulgente, não o desprezes, tu que estás na plenitude das tuas forças.
14. A caridade que exerceres com o teu pai não será esquecida, e ser-te-á considerada, em reparação de teus pecados.
15. No dia da aflição, o Senhor há de lembrar-se de ti, os teus pecados hão de dissolver-se como o gelo em pleno sol.
A nossa família, célula vital da Igreja e da Sociedade, e todas as famílias da terra merecem ser celebradas neste dia. Há que agradecer todas as maravilhas e alegrias que muitos experimentam no seio da sua família; aquela mãe ou aquele pai, aquele avô, aquele tio ou tia, aquele irmão, aquele que se fez da nossa casa, sem ser necessariamente por laços de sangue; assim, como tantos gestos de solidariedade de muitas famílias que, incansavelmente, procuram ser o rosto e a mão que Deus estende àqueles que mais precisam de conforto e paz.
Mas tendo em contas as vicissitudes do tempo presente e as sombras que pairam sobre as famílias, este também é um momento para refletir sobre como vai a nossa família. O projecto de Deus para a humanidade e que não podemos crer que esteja perdido ou fracassado, é que em cada lar, os seus membros, sobretudo os mais novos e os mais vulneráveis, encontrem sinais de amor, gestos de ternura e atitudes responsáveis que apontem caminhos de luz, esperança e de vida, em direcção a um mundo melhor; embora o futuro da humanidade que se vislumbra diante dos nossos olhos pareça tantas vezes nubloso, incerto e inseguro.
Assim, neste dia, unamo-nos na alegria solidária que caracteriza a nossa vocação de compartilhamos juntos a mesma viagem e façamos o que está ao nosso alcance para que todas as famílias sejam, o porto seguro nas tempestades deste tempo e o lugar onde «a vida começa e o amor nunca termina».
† Ildo, Bispo de Mindelo
MENSAGEM DO BISPO DE MINDELO – QUARESMA 2024
“Eis que faço novas todas as coisas” (Ap 21, 5)
Queridos irmãos e irmãs
Em determinados momentos da vida desejamos muito que surja um novo tempo e se escreva uma nova página da história. Firmes na Palavra do Senhor é sempre possível recomeçar e fazer tudo novo de novo. O Espírito de Deus nos encoraja a nos reinventarmos. Deixemo-nos recriar pela Palavra de Deus, para uma nova orientação de vida nesta caminhada quaresmal.
A palavra-chave deste tempo é conversão; uma transformação séria em nós é possível porque Deus é amor em acção e Ele tudo pode. Este tempo é uma porta favorável que se abre diante nós. Na mensagem para a Quaresma deste ano, o Papa Francisco nos lembra que Deus vê e escuta, está atento às situações de escravidão e dor do seu povo, por isso, decidiu descer para o libertar (cf. Ex 3, 7-8). Também hoje o grito de tantos irmãos e irmãs oprimidos chega ao céu. Os relatos que nos chegam a cada instante põem em evidência que o mundo está doente e em decadência. Enfrentamos desafios de violência, hostilidades entre os povos, ondas crescentes de rivalidades e intolerância um pouco por toda a parte.
A realidade faz-nos pensar que somos mais inimigos uns dos outros que irmãos. Diante desse cenário, questionamo-nos: como justificar tantos conflitos e guerras inimagináveis num mundo que busca progresso e luta pelos direitos humanos? Quem nos poderá livrar do peso do pecado e deste fardo que a humanidade carrega? Sozinhos, não somos capazes; precisamos do olhar solícito de Deus e da sua intervenção paterna.
A Quaresma, como caminho para a Páscoa, é entrada na via da libertação. Deus persiste em nos procurar, oferecendo-nos a oportunidade de reintrodução na vida. Este é o momento de se recentrar no caminho da fraternidade, da luz verdadeira e da liberdade.
Esta jornada rumo à Páscoa é uma aventura pessoal e comunitária alcançada no horizonte da esperança. Há que descobrir a esperança no meio das nossas guerras, entre os escombros do horrendo, entre os pobres, os frágeis e os desprotegidos que continuam a ser objectos de exploração pelos poderosos e por sistemas económicos que impiedosamente asfixiam e matam.
A proposta da Igreja para nós é clara: converter dos nossos maus caminhos: semear a beleza que abre a nossa imaginação ao transcendente, o bem e a verdade, porque isso é o remédio que nos repõe na senda da santidade. Diz Francisco que: “É tempo de agir e, na Quaresma, agir é também parar: parar em oração, para acolher a Palavra de Deus, e parar como o Samaritano em presença do irmão ferido”, porque “o amor de Deus e do próximo formam um único amor”.
O deserto quaresmal é “parar na presença de Deus, junto da carne do próximo. “Por isso, oração, esmola e jejum não são três exercícios independentes, mas um único movimento de abertura, de esvaziamento: lancemos fora os ídolos que nos tornam pesados, fora os apegos que nos aprisionam.” Com o Papa, cremos que se “esta Quaresma for de conversão, a humanidade extraviada sentirá um estremeção de criatividade: o lampejar duma nova esperança”.
A Renúncia Quaresmal deste ano, após ter ouvido o Conselho Presbiteral, será para as vítimas da guerra em curso entre Israel e Hamas; um gesto de solidariedade e participação no seu sofrimento, que fazemos em colaboração com a Caritas Jerusalém. A Renúncia Quaresmal de 2023 em favor das famílias mais pobres que carecem de segurança alimentar rendeu 489.289$00. Não nos falte a ousadia da caridade; cada um dê como dispôs em seu coração, sem tristeza nem constrangimento, pois Deus ama quem dá com alegria (2 Cor 9, 7)!
Que a espiritualidade da nossa Quaresma nos infunda coragem, luz e força para prosseguir a caminhada, aguardando os novos céus e a nova terra (cf. Ap 21, 1).
Mindelo, Quarta-Feira de Cinzas, 14 de fevereiro de 2024
† Ildo Fortes, Bispo de Mindelo
MENSAGEM DE NATAL DE 2023 (C/ VÍDEO)
MENSAGEM DE NATAL 2021
DEUS TEIMA EM ESTAR CONNOSCO
Estimados irmãos e irmãs,
votos de muita saúde e paz na ternura do Deus Menino!
Este é o dia de saborear a grande alegria que veio do Céu à terra; alegria de Deus que se fez homem e caminha no meio de nós. Ele veio ao nosso encontro porque deseja partilhar o Seu amor e a Sua vida. É Ele a nossa força e confiança, a inspiração e luz no caminho muitas vezes incerto e a motivação para continuar a viver.
Neste dia, o nosso coração é chamado a encher-se de espanto e admiração para contemplar no presépio de Belém, tão grande mistério: Deus grande e todo-poderoso escolheu nascer Menino pobre e humilde, mas rodeado de inefável ternura e aconchego de Maria e José.
Que neste Natal consigamos espaço em nós para Ele nascer, crescer e desenvolver-se. Precisamos de nascer com Ele, pobres e frágeis, para uma vida nova!
Que neste Natal, para além das muitas coisas boas que experimentamos na família, com os amigos e na comunidade, experimentemos também Jesus, fonte de Amor, Justiça e Paz, que decididamente persiste em habitar entre nós.
Isaías profetizava dizendo que «o povo que andava nas trevas viu uma grande luz» (Is 9, 1). Jesus, nascido da Virgem Mãe, é essa luz que o mundo tanto precisa e, somos chamados a levar a quem mais d’Ele necessita.
Santas festas de Natal e um Ano Novo cheio de renovada esperança!
† Ildo Fortes, Bispo de Mindelo
MENSAGEM DO BISPO DE MINDELO – QUARESMA 2021
Mostrai-nos, Senhor, os vossos caminhos
Fazei nascer dentro de mim um espírito firme (Sl 50,12)
Queridos irmãos e irmãs em Cristo!
De tempos em tempos voltamos ao mesmo lugar, mas nunca é a mesma coisa porque, supostamente, também já não somos o mesmo; teremos crescido e progredido em algum aspecto da nossa vida. Assim seja!
Assim, de novo, nos encontramos na Quaresma com os olhos postos na Páscoa do Senhor. Quaresma, esse tempo e lugar onde Deus nos espera para nos renovar interiormente e para nos recolocar na marcha da vida. O caminho da vida é feito de etapas e pedaços. No primeiro domingo da Quaresma, o salmista, com confiança e esperança, suplica: mostrai- me, Senhor, os vossos caminhos (Sl 24, 4). Nada há de tão confortante como ter alguém que nos sabe indicar o caminho; sobretudo, nas encruzilhadas da vida e nos momentos de alguma desorientação e fragilidade, como este que vivemos. Precisamos de Alguém que nos oriente, que coloque um pouco de luz na nossa estrada e mais ainda, que se faça caminhante ao nosso lado.
Há sensivelmente um ano que o mundo procura o caminho para uma saída desta terrível situação que preenche o quotidiano universal. Não podemos deixar de celebrar e admirar as conquistas que os cientistas e pesquisadores ao nível da saúde têm feito para fazer frente à pandemia e conseguir a cura tão desejada. É legítimo manifestar a nossa gratidão a todos quantos, nos demais sectores da comunidade humana, conseguem avanços e recordes na prevenção e nos cuidados de saúde.
Mas nunca é de mais contar com o Senhor, Deus de misericórdia, para nos ajudar a encontrar o caminho da vida e da salvação. Os crentes têm o dever de, neste mundo, apontar caminhos: caminhos de esperança e de amor. O mesmo salmista continua a sua prece dizendo: lembrai-vos, Senhor, das vossas misericórdias e das vossas graças. Que a nossa Quaresma seja uma aventura de oração permanente; peçamos ao Senhor para que Ele não se afaste de nós; embora Ele nunca se tenha afastado, mas, nós é que precisamos de O sentir mais próximo. Ele continua o mesmo Deus bom e generoso, pronto a orientar os humildes na justiça.
A Luz da Ressurreição que ilumina a nossa caminhada é a certeza de nova primavera de vida e alegria. Essa Luz de Cristo que nos reconciliou com Deus, deve suscitar em cada um de nós a coragem de ressurgir das cinzas; encher-se de ânimo e voltar para o Senhor. Não terá sido por acaso que iniciamos a Quaresma com a celebração das cinzas, colocando em nossos lábios as palavras do livro sagrado: fazei nascer dentro de mim um espírito firme. Não queirais repelir-me da vossa presença (Sl 50, 12-13).
Temos diante de nós um tempo para renascer, para crescer em mais solidariedade e sermos mais verdadeiramente família. A autêntica ascese pessoal passa pela atenção aos outros. Confiantes, vamos recuperar a força da comunidade, da fraternidade, da partilha e da reconciliação para que o mundo seja verdadeiramente mais humano. «A partir do «amor social», é possível avançar para uma civilização do amor. O amor social é uma «força capaz de suscitar novas vias para enfrentar os problemas do mundo de hoje e renovar profundamente (FT183).
Não deixa de ser curioso o que na mensagem do ano passado, ainda sem conhecer os efeitos da Covid-19, eu dizia: «quando simbolicamente se nos convida a ir ao deserto nesta caminhada, é porque o deserto é o melhor lugar que há para darmos conta de quem somos e onde estamos. No deserto nos sentimos pequenos, mas também nele podemos desfazer do supérfluo para nos agarrarmos ao essencial. Parece-me que nunca tocamos tanto o vazio e a superficialidade como hoje». A tomada de consciência do nada que somos e que as cinzas também significam, é importante para recomeçarmos.
Prosseguimos a nossa caminhada com Cristo, buscando as razões da verdadeira esperança. Como diz o Papa Francisco na sua mensagem para a Quaresma: «Esperar com Ele e graças a Ele significa acreditar que, a última palavra na história, não a têm os nossos erros, as nossas violências e injustiças, nem o pecado que crucifica o Amor; significa obter do seu Coração aberto o perdão do Pai»
A proposta da Renúncia Quaresmal mantem-se a mesma do ano passado, já que a situação pandémica com restrições de celebrações comunitárias não permitiu o efeito pretendido. Será para apoiar a Fazenda da Esperança – que trabalha na recuperação de pessoas com toda a espécie de dependência (álcool, droga, etc.); Ousemos a solidariedade que é fruto do amor de quem espera em Deus, porque «só com um olhar cujo horizonte esteja transformado pela caridade, levando-nos a perceber a dignidade do outro, é que os pobres são verdadeiramente integrados na sociedade» (cf. FT187).
Votos de uma boa caminhada para a Páscoa, e que São José, homem justo e obediente, interceda por nós para seguirmos pelos caminhos do Senhor!
Mindelo, Quarta-feira de Cinzas, 17 de Fevereiro de 2021
† Ildo Fortes, Bispo de Mindelo
MENSAGEM DO BISPO DE MINDELO – QUARESMA 2019
Não te apresentes diante de Deus de mãos vazias
Não te apresentes diante de Deus de mãos vazias (Sir 35, 4). Esta palavra ouvimo-la de um dos livros sapienciais, na véspera de darmos início a esta Quaresma; ela é bem oportuna e interpelativa. Deus é abundância, Ele é riqueza de amor e vida partilhada, junto d’Dele há abundância da redenção (Sl 130, 7). O nosso Deus dá-se inteiramente sem reservas nem medida e isso é causa da nossa alegria. Por isso mesmo, Aquele que nos criou à Sua imagem e semelhança, não espera outra coisa de nós senão que sejamos e vivamos também em plenitude a vida que Ele nos confiou. Não queiramos nos apresentar diante do Senhor, vazios e de mãos vazias!
Este tempo especial e favorável de Graça e salvação é deveras sugestivo para olharmos para dentro de nós, num exercício difícil para muitos, e vermos como estamos interiormente. Qual é a verdade que nos preenche? É necessário reajustar as nossas atitudes interiores quanto ao que diz respeito a Deus e aos outros. Há que rever as nossas práticas a começar pelas religiosas e ver se elas dão testemunho de uma de vida coerente e marcada pelo amor.
As cinzas com que começamos este tempo santo, impondo sobre as nossas cabeças, mais do que reproduzir a imagem manchada pelo pecado ou a caducidade da nossa frágil existência longe de Deus, querem ser sinal do recomeço, pois que somos agora de novo chamados a renascer para vida nova e a reavivar em nós a graça e a dignidade de baptizados. É para a Páscoa que olhamos desde já, para a transformação interior que se realizará em nós graças a Cristo Ressuscitado.
Este século, este tempo presente onde se desenrola a nossa existência, empurra-nos e projecta-nos vertiginosamente para longe de nós, num reboliço sem fim e, se nos falta a sabedoria de fazer um stop, corremos o risco de ir na enxurrada do tempo que nos impede de realizar em pleno a vida com o sabor e com o colorido com que Deus a plasmou.
Trata-se da necessidade de uma paragem espiritual técnica tão própria da tradição da Igreja ao longo dos séculos, para recomeçar e nos deixarmos recriar ao ritmo do coração de Deus. A abrir este 1º Domingo da Quaresma, somos confrontados com Jesus que movido e cheio do Espírito Santo, retirou-Se das margens do Jordão… (Lc 4, 1). Os sábios e os sedentos sabem parar… pois só sacia a sua sede quem é capaz de deter-se junto à fonte. Eis a proposta nesta escalada para a Páscoa: deter-se um pouco, parar; e como filhos de Deus deixar-se guiar pelo Espírito Santo ao deserto da oração e da conversão. «A tentação sempre latente em nós é de fugir para um lugar seguro, que pode ter muitos nomes: individualismo, espiritualismo, confinamento em mundos pequenos, dependência, instalação, repetição de esquemas preestabelecidos, dogmatismo, nostalgia, pessimismo, refúgio nas normas. Talvez nos sintamos relutantes em deixar um território que nos era conhecido e controlável». (GE 134)
Caminhemos para a Páscoa próximo dos irmãos e irmãs em dificuldades…
Nesta caminhada para a Páscoa, só lá chega quem for capaz de levar outros consigo. O próximo ocupa um lugar muito importante na vivência da Quaresma. De pouco ou nada nos valerá o jejum e a esmola recomendados pela Igreja nesta época, se isso não significar um treino prático para estar mais próximo dos outros. Essas práticas têm em mira a fraternidade e a solidariedade. O Papa na sua mensagem quaresmal sintetiza assim essas recomendações:
«Jejuar, isto é, aprender a modificar a nossa atitude para com os outros e as criaturas: passar da tentação de «devorar» tudo para satisfazer a nossa voracidade, à capacidade de sofrer por amor, que pode preencher o vazio do nosso coração. Orar, para saber renunciar à idolatria e à auto- suficiência do nosso eu, e nos declararmos necessitados do Senhor e da sua misericórdia. Dar esmola, para sair da insensatez de viver e acumular tudo para nós mesmos, com a ilusão de assegurarmos um futuro que não nos pertence. E, assim, reencontrar a alegria do projecto que Deus colocou na criação e no nosso coração: o projecto de amá-Lo a Ele, aos nossos irmãos e ao mundo inteiro, encontrando neste amor a verdadeira felicidade».
O Ressuscitado, segundo o projecto do Pai, santifica e marca presença na «comunidade que guarda os pequenos detalhes do amor e na qual os membros cuidam uns dos outros e formam um espaço aberto e evangelizador. Sucede às vezes, no meio destes pequenos detalhes, que o Senhor, por um dom do seu amor, nos presenteie com consoladoras experiências de Deus» (cf. GE 145). Por isso, como de costume, a família diocesana, nesta Quaresma de 2019, vai mostrar a sua solidariedade através da Renúncia Quaresmal que será para ajudar aquelas populações que mais têm sofrido com este longo período de seca que se faz sentir no nosso país. Os dois anos consecutivos sem chuva, têm deixado várias famílias que dependem da criação de animais e da frágil agricultura de subsistência, em situações críticas de grave insegurança alimentar. Tem havido algum esforço a nível nacional de mitigar esta situação, nós vamos através da nossa Caritas que já habitualmente se encontra no terreno acompanhando de perto muitas dessas famílias, dar o nosso contributo. Como conclui o Papa Francisco na Sua mensagem:
«Abandonemos o egoísmo, o olhar fixo em nós mesmos, e voltemo-nos para a Páscoa de Jesus; façamo-nos próximo dos irmãos e irmãs em dificuldade, partilhando com eles os nossos bens espirituais e materiais». O fruto da Renuncia Quaresmal do ano passado foi de 340.000$00 e parte já foi entregue à Rede PASM – Rede de Prevenção de Abuso Sexual de Menores com sede em Santo Antão, como tínhamos determinado. Sejamos amigos dos pobres de Deus e as nossas mãos não estarão vazias quando chegarmos à Páscoa!
Mindelo, 10 de Março de 2019 – I Domingo da Quaresma
† Ildo Fortes, Bispo de Mindelo
MENSAGEM DO BISPO DE MINDELO – QUARESMA 2018
Mudar de direcção e ser todo inteiro de Deus
Irmãos e irmãs a caminho da Páscoa,
A Igreja sabe que, enquanto peregrinamos na história, precisamos de nos situar num tempo e num lugar, por isso nos oferece uma oportunidade favorável de caminhada, de retorno ao coração de Deus, que é a Quaresma. Muitas vezes fomos longe demais, para longe do Seu olhar e do Seu amor e torna-se necessário envergonhar-se, encher-se de coragem e regressar à Casa paterna (cf. Lc 15. 11-32). A proposta é de caminho comunitário e pessoal; valha-nos a força solidária da comunidade e a certeza que Deus é esse Pai sempre disposto a oferecer-nos uma nova oportunidade de perdão e reconciliação. O Seu amor nos atrai e renova a nossa confiança e a nossa esperança para nos erguermos dos lugares onde o pecado drasticamente nos arremessou e saborear a luz da vida que desponta da Cruz de Cnsto.
Converter, mudar radicalmente de direcção, ser todo inteiro de Deus é o desafio que se propõe a todo o cristão que deseja celebrar a Páscoa. Isto nos lembrava o profeta, ao iniciarmos este tempo santo, com a imposição das cinzas: «Convertei-vos a Mim de todo o coração… rasgai o vosso coração e não os vossos vestidos» (Joel 2,12). Queiramos recriar o nosso deserto interior (espaço de oração e recolhimento), coisa estranha ao mundo de hoje, mas condição indispensável para a escuta e ganhar forças para acolher a vontade de Deus. É necessário caminharmos na lealdade diante do Deus misericordioso e fazer a experiência da contrição, mais do qualquer espectáculo ritual que enche os olhos, mas não move o coração de Deus.
Como é habitual, somos convidados a empenharmos na prática de Renúncia Quaresmal. Como diz o Papa Francisco: «a Igreja, nossa mãe e mestra, nos oferece, neste tempo de Quaresma, o remédio doce da oração, da esmola e do jejum». Esse doce remédio afasta-nos do pecado e aproxima-nos de Deus e dos irmãos. A Renúncia Quaresmal deste ano, por sugestão de alguns padres, será destinada para um Projecto, relatvamente novo e com enfoco sobretudo em S. Antão, chamado Rede PASM – Rede de Prevenção de Abuso Sexual de Menores – cujo objectivo é sensibilizar e ajudar a prevenir e a combater o crime de abuso sexual de menores. Bem sabemos como esse flagelo, infelizmente, continua a ter lugar em alguns ambientes da nossa sociedade. Os pequeninos sempre tiveram um lugar privilegiado no coração de Jesus e foram objecto do Seu especial cuidado. Nós vamos fazer nossa, essa causa do Mestre Não nos falte ousadia para a partilha, pois, Deus abençoa largamente quem dá com generosidade.
Votos de uma santa Quaresma – caminho de reconciliação!
Mindelo, 1º Domingo da Quaresma, 18 de Feverero de 2018
1 lido Fortes, Bispo de Mindelo
MENSAGEM DO BISPO DE MINDELO – QUARESMA 2017
Não poderá haver justiça nem paz social enquanto Lázaro jazer à porta da nossa casa (cf. Lc 16, 19-21)
Este ano ao iniciarmos o tempo santo da Quaresma temos certamente ainda bem viva na memória a vivência do Ano Jubilar da Misericórdia: uma boa oportunidade para bebermos intensamente do coração misericordioso de Deus Pai. O tempo que agora celebramos e vivemos é de novo propenso para voltar a saborear de maneira profunda esta mesma misericórdia que é uma fonte perene de alegria e paz.
Para que toda a experiência vivida durante esse ano de graça não caísse no esquecimento, o Papa Francisco presenteou-nos no término do ano santo com uma simpática e interpelante Carta Apostólica, intitulada Misericordia et Misera. Esta poderá ser uma boa ajuda para vivermos esta Quaresma de 2017. O Santo Padre deseja que esse tempo rico em misericórdia, possa continuar a ser celebrada e vivida nas nossas comunidades. Com efeito, a misericórdia não se pode reduzir a um parêntese na vida da Igreja, mas constitui a sua própria existência, que torna visível e palpável a verdade profunda do Evangelho (cf. MM1).
É dessa mesma carta, a forte afirmação com a qual abro esta mensagem quaresmal: Não poderá haver justiça nem paz social enquanto Lázaro jazer à porta da nossa casa (cf. Lc 16, 19-21). Tais palavras, tendo em conta o lema pastoral da Diocese (Construir a Justiça para Acolher a Paz), ressoam de modo especial nos nossos ouvidos. Nesta caminhada pessoal e comunitária para a Páscoa, o desafio que se nos apresenta pela frente é precisamente este de caminhar em direcção a Deus, mas levando o outro, o pobre e o injustiçado connosco. Aconselho também vivamente a que se leia e se medite na Mensagem do Papa Francisco para esta Quaresma – A Palavra é um dom. O outro é um dom. Curiosamente, a imagem que o Papa toma para explanar a sua Mensagem é também a do pobre Lázaro. Tal como Lázaro, o outro é um dom, uma riqueza inestimável, um ser querido, amado, recordado por Deus; O pobre é um apelo à nossa conversão e mudança de vida. Sem a atenção e o amor aos irmãos, a justiça e a paz não brotarão na terra.
Como em todos os tempos litúrgicos, a Palavra ocupa um lugar importante no nosso itinerário espiritual, mas a Quaresma, mais que todos os outros tempos da liturgia, é um tempo em que a escuta da Palavra é acompanhada por obras que manifestam a atitude de conversão.
Assim, como é habitual durante a Quaresmas, convido-vos a empenhar generosamente na prática da Renúncia Quaresmal. «Ir ao encontro das necessidades do próximo e partilhar com os outros aquilo que, por bondade divina, possuímos. Tal é a finalidade das colectas especiais para os pobres, que são promovidas em muitas partes do mundo durante a Quaresma. Desta forma, a purificação interior é corroborada por um gesto de comunhão eclesial, como acontecia já na Igreja primitiva» (Bento XVI, Mensagem da Quaresma 2008).
O valor da Renúncia Quaresmal do ano passado foi de 360.895$00 (dados que conseguimos apurar até ao momento); ela foi destinada para aquelas povoações que mais danos sofreram com a passagem do furacão Fred em 2015. Este ano, a proposta da Renúncia Quaresmal é para reverter em prol das crianças que vivem em grande situação de risco; situações essas que infelizmente tendem a aumentar na nossa sociedade (meninos de rua, crianças que experimentam tremendas privações, a Associação Irmãos Unidos, etc.).
Fazendo ainda eco da Carta Pastoral 2016-17: os interesses particulares e económicos prevalecem com frequência sobre o bem comum. Mas «o Evangelho convida-nos sempre a abraçar o risco do encontro com o rosto do outro, com a sua presença física que interpela, com o seu sofrimento e suas reivindicações, com a sua alegria contagiosa permanecendo lado a lado» (EG 88). É perigosa a indiferença e o descuido do nosso próximo porque destrói o relacionamento interior comigo mesmo, com os outros, com Deus e com a terra. Não podemos ficar inertes frente ao relativismo prático dos nossos dias, e aos mais diversos modos de antropocentrismos que alimenta a degradação ambiental e social e reduz a pessoa a um mero objecto (Cf. LS122; 123).
Estou certo que não faltarão gestos ousados e expressivos da nossa justiça e amor para com os pequeninos que ocupam um lugar privilegiado no coração de Deus. Deus recompensa com a alegria aqueles que cuidam dos Seus pobres!
Votos de uma santa Quaresma, caminho de conversão, justiça e paz!
Mindelo, 1º Domingo da Quaresma, 5 de fevereiro de 2017
† Ildo Fortes, Bispo de Mindelo
MENSAGEM DE NATAL PARA OS DOENTES – 2016
Natal é Deus que se dá…
Queridos irmãos,
Está a chegar o Natal, tempo que transporta magia e desperta em nós sentimentos, por vezes, difíceis de se viver. Sentimos aquela tradicional alegria que se mistura com sonhos de um mundo melhor, de paz, alegria e prosperidade, e que as nossas palavras, postais, músicas, poemas e gestos desta quadra traduzem muito bem.
Sonhamos estar perto daqueles que amamos e fazem parte da nossa vida, mas nem sempre esse sonho é realidade. Concretamente, os que estão nos hospitais ou passam por alguma fragilidade ou falta, nesta época, são propensos a sentir um vazio dentro e uma solidão maior.
Por isso, convém ter presente que Natal é oferta, é dom amoroso de Deus à humanidade. Aquele que nos ama incondicionalmente, rompeu as nuvens, quebrou a distância e veio até nós, na pobreza e na simplicidade de um Menino, nascido em Belém; O Menino que a Virgem acolheu no Seu seio e sustenta nos braços com ternura. A esta oferta, divina e valiosa, respondemos com fé e acolhemos com muita gratidão.
Ele tem este poder de nos surpreender e vir sempre ao nosso encontro, em qualquer lugar ou situação em que nos encontramos. Natal não é obra dos homens, não somos nós que o fazemos e muito menos as coisas, sobre as quais desenfreadamente nos precipitamos nesta época, mas é Deus a habitar no nosso coração. E saibas tu, que experimentas alguma dor ou sofrimento físico, moral ou espiritual, que o Emanuel – O Deus connosco – veio para aqueles que mais precisam; Ele na sua passagem por este mundo, deixou bem claro a sua especial predilecção pelos pobres e pequeninos, os da periferia, como costuma dizer o Papa Francisco.
«Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes» (Mt 9, 12).
Querido irmão ou irmã que te encontras no Hospital, doente ou decaído, abre o teu coração a Jesus e seguramente haverá Natal para ti; aquele natal que vale a pena celebrar; aquele que traz alegria e paz para a tua vida
Que o Deus – Menino, nos encha, a todos, de Suas bênçãos de paz e alegria!
† Ildo Fortes, Bispo de Mindelo
MENSAGEM DE NATAL PARA OS DOENTES – 2016
Natal é Deus que se dá…
«Na “plenitude do tempo” (Gl 4, 4), quando tudo estava pronto segundo o seu plano de salvação, mandou o seu Filho, nascido da Virgem Maria, para nos revelar, de modo definitivo, o seu amor. Quem O vê, vê o Pai (cf. Jo 14, 9). Com a sua palavra, os seus gestos e toda a sua pessoa, Jesus de Nazaré revela a misericórdia de Deus», in Misericordiae Vultus.
A vinda do Filho de Deus ao mundo que nós comemoramos todos os anos por esta altura é a certeza que não estamos mais sós nesta aventura da vida. E há a acrescentar que a Salvação oferecida por Deus n’Aquele Menino, nascido em Belém, veio para aqueles e aquelas que mais precisavam, os que estavam longe e nas trevas, os que na sua pele experimentavam alguma dor ou sofrimento: entre eles, os pobres, os doentes, os rejeitados, os abandonados e esquecidos da sociedade. Para com todos esses, Jesus de Nazaré, manifestou de modo preferencial e ternurenta, com gestos e palavras, o amor e a misericórdia que desceu do Céu à terra. Isso é Natal!
Natal é, em qualquer situação ou lugar em que te encontras, meu irmão ou minha irmã que sofres, a a experiência sempre actualizada de um Deus que se fez pequeno e próximo para nos amar e comunicar a vida em abundância, ou seja, vida com pleno sentido!
Como diziam os anjos aos pastores naquela noite venturosa em que nasceu o Salvador: não tenhas medo! Pois, o Senhor está no meio de nós, um Meninonasceuparanós; Ele é o Deus forte e poderoso, capaz de se compadecer de todos os nossos achaques e fragilidades. Seja Ele a tua paz e consolo nesta quadra natalícia!
Maria, Mãe de misericórdia, neste Jubileu Extraordinário de Misericórdia, nos ensine a acolher, a trazer e dar Jesus ao mundo com gratidão e doce alegria!
Que o Deus – Menino, vos encha a vós e a quantos cuidam dos doentes de Suas bênçãos e vos conceda a paz ao coração!
† Ildo Fortes, Bispo de Mindelo
