Moçambique: Novos ataques terroristas causam apreensão e agravam crise humanitária em Cabo Delgado

2022-03-22       Actualidade       Igreja  

  

Além de novos episódios de violência terrorista em Cabo Delgado, Moçambique foi assolado também por um ciclone que causou mais de meia centena de mortos e provocou uma onda enorme de destruição. Bispos de Quelimane e Nacala mostram a sua preocupação.

A ilha de Materno, no arquipélago das Quirimbas, em Cabo Delgado, foi palco de “intensos combates” durante a semana passada entre grupos armados e soldados das forças de segurança de Moçambique. 

A informação foi divulgada por um porta-voz da polícia, que anunciou também a morte de 10 insurgentes, como localmente os terroristas são referenciados. 

Segundo Ernesto Maungue, os terroristas terão invadido a Ilha de Matemo, situada no distrito de Ibo, na noite de quarta-feira, 16 de Março, tendo havido uma “ofensiva” por parte das Forças de Defesa e Segurança que causou a morte a “10 elementos do grupo terrorista” e à captura, já na quinta-feira, de algum equipamento bélico. 

A notícia do ataque dos terroristas à ilha de Matemo foi divulgada também pelo Presidente da República, Filipe Nyusi, num encontro com Marcelo Rebelo de Sousa, que esteve de visita oficial a Moçambique. “Os meus jovens [militares] estão a combater na ilha de Matemo, porque os terroristas tentaram se infiltrar, mas estão a levar bem”, disse Nyusi durante o jantar na quinta-feira, 17 de Março, na sua residência oficial, em Maputo, perante o seu homólogo português. 

“Temos plena consciência de que a vitória completa ainda está por conquistar”, disse ainda o presidente moçambicano, tendo aproveitado a ocasião para renovar “o apelo à comunidade internacional”, no sentido de continuar a “apoiar os esforços” de Moçambique, do Ruanda e da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral, “na frente de combate” para “erradicar” a violência armada no país lusófono. 

Durante a semana passada foram também encontrados, nas proximidades da capital de Cabo Delgado, os corpos de oito pessoas que provavelmente “morreram de fome”, segundo revelou o Bispo de Pemba, citado pela Rádio Renascença.
A presença activa de grupos armados no norte de Moçambique, tanto na província de Cabo Delgado como na de Niassa, está a agravar o sentimento de insegurança das populações locais.  Os ataques tiveram início no final de 2017 e já provocaram cerca de três mil mortos e mais de 850 mil deslocados internos.

Ainda recentemente, em declarações após a sua nomeação, a 8 de Março, como Bispo de Pemba, D. António Juliasse alertava precisamente para esta situação. “A violência terrorista continua a ter os seus efeitos em Cabo Delgado e a crise humanitária ainda está presente. Infelizmente, a situação não é muito visualizada nos últimos momentos e divulgada com a mesma intensidade como foi há algum tempo atrás, mas o sofrimento do povo de Cabo Delgado ainda continua”, disse o prelado na mensagem enviada para Lisboa.
 
Lembrando que os campos de reassentamento acolhem milhares de “pessoas necessitadas”, e que muitas “não conseguem ter o alimento diário”, o Bispo apelou à solidariedade de todos para com esta região tão empobrecida de Moçambique. “Renovo o apelo para que o mundo não esqueça Cabo Delgado e não esqueça o sofrimento que há, porque se nos esquecermos isso será grave, [pois] há imensa gente ainda dependente das ajudas que chegam de todo o lado, e, portanto, é preciso ainda continuar a salvar as vidas nestas condições de extrema pobreza”, disse o prelado que desempenhava anteriormente as funções de administrador apostólico de Pemba, além de que era também bispo auxiliar de Maputo.

CICLONE DEVASTADOR
A agravar este cenário já de si tão difícil, algumas regiões de Moçambique foram assoladas, a partir do dia 11 de Março, pelo ciclone Gombe, que atingiu especialmente as províncias de Nampula e Zambézia. Segundo o último relatório do Instituto Nacional de Gestão de Desastres, divulgado na semana passada, o ciclone causou mais de meia centena de mortos e cerca de 80 feridos, sendo que a maior parte dos óbitos foram registados em Nampula. No total, e os dados são ainda provisórios, haverá cerca de 20 mil deslocados, tendo o ciclone afectado contudo mais de 400 mil pessoas.

D. Hilário da Cruz Massinga, Bispo de Quelimane (Zambézia), em mensagem enviada para Ulrich Kny, o responsável de projectos da Fundação AIS em Moçambique, alertava para uma situação de “muito sofrimento” por parte das populações. “Tudo está inundado: casas, campos semeados… Estamos impotentes perante tão grande sofrimento! As pessoas não têm comida e estão a sofrer de diarreias por falta de água potável…” 

Por sua vez, o Bispo de Nacala, D. Alberto Vera, fez referência também a um cenário desolador. “Em Monapo, é uma tristeza. Pavilhão, secretaria do distrito, escolas e casas no bairro perderam tectos.  Muitas casas caíram. Algumas famílias estão sendo acolhidas na EPC e no centro pastoral.” Noutra mensagem, o Bispo explica ao responsável de projectos da Fundação AIS algumas das consequências da passagem do ciclone pelo território da diocese. “O sofrimento é muito forte. Os pobres camponeses graças à chuva [que se fazia sentir] tinham uma grande esperança numa boa colheita, mas o ciclone destruiu-a quase toda.” Por causa disso, sublinha D. Alberto, “este ano, novamente, será um ano de fome”.

A situação em Moçambique, um dos países mais pobres do mundo, é acompanhada em permanência pela Fundação AIS. Ainda no passado mês de Fevereiro, foi publicada uma pequena revista com um apelo a todos os benfeitores e amigos da instituição em Portugal para auxiliarem a Igreja Católica neste país africano. “Moçambique conta consigo, vamos ajudar?”, foi o mote dessa campanha baseada nos testemunhos recolhidos pela equipa da Fundação AIS que esteve neste país africano em Novembro do ano passado e que atestou a importância do trabalho solidário da Igreja junto das populações mais afectadas pela pobreza e violência terrorista.

Fonte: Departamento de Informação da Fundação AIS

 



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