Dom Ildo Fortes escreve Carta Pastoral para 2022-23

2022-08-24       Actualidade       Igreja  

  

Dom Ildo Fortes, Bispo de Mindelo, dirige Carta Pastoral aos fiéis da Diocese, para o Ano 2022-23. A Comunidade, Lugar de Pertença e Vivência da fé. Cultura Vocacional, é o lema deste segundo ano do triénio que prepara o Jubileu dos 20 anos da Criação da Diocese

CARTA PASTORAL PARA O ANO 2022-23

A COMUNIDADE,
LUGAR DE PERTENÇA E VIVÊNCIA DA FÉ
 

Estimados irmãos e irmãs,
Neste novo ano pastoral, à semelhança do que vos escrevia, continuamos a celebrar em espírito de gratidão os quase 20 anos da Diocese e olhamos para o futuro que Deus nos oferece com muita esperança. Igreja Casa e Escola de Comunhão, Viva e Missionária é o lema que mantemos no triénio 2021-2024. O propósito da espiritualidade de comunhão deve continuar a marcar tudo o que fazemos, inclusive os nossos planos pastorais; esse esforço sincero de comunhão começa no coração e nas atitudes de cada um de nós. De pouco nos valem as estruturas se lhes faltam a alma e o amor que emana do coração do Senhor para com a Sua Igreja.

Os ecos da consulta sinodal diocesana deixam bem claro a sede do povo de Deus para viver numa Igreja que, para além de serviços e estruturas, saiba criar e oferecer espaços de comunhão, fraternidade, escuta e inclusão: laços de comunhão entre os Pastores e o conjunto do povo de Deus, entre Clero e Religiosos, entre associações e movimentos eclesiais é uma exigência e sobre isso, falávamos na Carta Pastoral de 2021-2022.

O triénio que nos conduz ao jubileu dos 20 anos, ficou assim organizado: 1º ano – Igreja Casa e Escola de Comunhão. A identidade laical e a prática da caridade; 2º ano – A Comunidade, lugar de pertença e vivência da fé. Cultura vocacional; 3º ano – A Igreja em Missão. Celebração do jubileu dos 20 anos da diocese. Memória e esperança.

A caminhada sinodal proposta pelo Papa: por uma Igreja sinodal, Comunhão, Participação e Missão, frisa o aspecto da participação. Pode ser essa a tónica a juntar a este ano pastoral vivido sob o tema: A Comunidade, lugar de pertença e vivência da fé. Cultura vocacional. A Comunidade eclesial feita de todos, está sempre em movimento porque é um organismo vivo; esta difere de outras instituições, por estar em constante renovação e porque é vivificada por Aquele que a sustem.  Nela, somos convocados para constituir um edifício espiritual, chamado ao louvor da glória do Senhor (cf. Ef 1, 8-12).


Não sem razão, muitas vezes constatamos que algumas comunidades estão estagnadas, passivas e outras até paralisadas. É urgente escutar a voz do Espírito que nos desperta para uma Igreja “em saída”. Comunhão, Participação e Missão, neste tríptico, vivemos o Sínodo. O processo sinodal captou a vivacidade das nossas comunidades, mas também as inquietações do povo que almeja por uma igreja aberta a todos e onde todos tenham vez e voz.  Esta tarefa deve envolver os Pastores e todos os fiéis comprometidos a caminhar juntos, cientes de que há
diversidade de dons e serviços e diversos modos de agir, concorrendo todos e cada um para o proveito comum (cf. 1Cor 12, 4ss).


Os resultados do processo sinodal, por um lado nos trazem a alegria e o entusiamo com que muitos acolheram esta iniciativa; pois, foi uma oportunidade de escutar, conhecer e sentir o que é vivido pelos nossos fiéis.  Foi tomada como sinal inovador e tão desejado por muitos. Por outro lado, também nos chegaram relatos daqueles que sentem que é mister uma grande conversão na Igreja, a começar pelos Pastores e por aqueles que lhes estão muito próximos. Pois a igreja é sentida como uma estrutura demasiada centrada nos Pastores e na sua autoridade, nem sempre bem vivida. Igreja clerical com uma acentuação vertical em vez de uma Igreja comunhão, fraterna e próxima, onde ninguém é mais que ninguém; apenas cada um tem um lugar que lhe é próprio, em virtude da sua condição de batizado e membro do Corpo de Cristo.  Se os Pastores não são assim, pelo menos, muitos dos inqueridos têm essa percepção.


Igreja comunhão e participação, acolhedora e onde nos sentimos em casa é o que ansiamos. Igreja que vive ao estilo de Jesus Cristo, manso e humilde de coração. Na Evangelii Gaudium, o Papa adverte para o perigo do desmoronar da comunidade: é fácil roubar, pilhar, destruir as comunidades. Não deixemos que nos roubem a comunidade (EG 93). Ela é de um valor inestimável e Cristo deu a sua vida para que todos nós nos tornássemos um N’Ele.


Aproximando-nos do jubileu dos 20 anos da Diocese, continuamos a sublinhar e a fazer de tudo para que ela seja a Casa e Escola de Comunhão; a comunidade que respeita a diversidade dos carismas, das sensibilidades, das visões e que não exclua ninguém. Neste sentido, na pessoa dos Pastores das comunidades e dos fiéis, cada um que deseja aproximar-se se sinta acolhido e chamado a fazer parte desta família. E isto deve acontecer a todo o momento e em qualquer lugar. Quando se chega à comunidade, procurando uma informação, solicitando um serviço, uma ajuda ou um sacramento, que as portas do coração sejam as primeiras a estarem abertas para oferecer o bálsamo da fraternidade e da disponibilidade.

Para este segundo ano do triénio, vamos privilegiar o sentido de pertença e participação de todos. Na assembleia cristã, é certo que nem todos têm que ser protagonista de alguma acção, nem estar na linha da frente, mas ninguém deve se sentir de lado ou excluído. Cada qual tem um lugar nesta casa e essa consideração define o jeito de participação. Especial atenção e acompanhamento deveríamos fazer àqueles que são recéns baptizados, crismados ou, simplesmente, chegaram de novo à paróquia.

Talvez cada comunidade possa tomar os resultados do inquérito sinodal, como elementos a analisar para melhorar a dinâmica pastoral no sentido de corresponder aos legítimos desejos e sonhos dos fiéis.

Para participar melhor é fundamental conhecer a natureza do que é ser cristão; pelo que é necessário continuar a apostar na formação e capacitação dos nossos leigos.  Vários são os subsídios e as propostas de formação que a Igreja vai pondo à nossa disposição. A Escola Universitária Católica é primeiramente para os de dentro. A temos em conta?


Que os Párocos, em vez de multiplicarem acções na comunidade, vejam com os conselhos paroquiais, quais aquelas que deveriam ser priorizadas e em que momentos mais apropriados deveriam acontecer de modo que haja foco naquilo que é verdadeiramente essencial. Que as conferências, formações, reuniões, ensaios, retiros, preparações diversas, festividades sejam pensados de forma equilibrada e real, sem dispersões daquilo que é a disponibilidade da nossa gente. É preciso maior articulação entre os grupos e movimentos, ao organizar atividades que exijam a mobilização da comunidade.  Há que fomentar a cultura da programação pastoral paroquial e definir os momentos certos para convocar os fiéis e as pessoas em geral.

Neste contexto, deve-se ter presente as propostas que emanam da Diocese e dos serviços que estão mandatados pelo Bispo: Semana Teológica, formação dos catequistas, pastoral familiar, encontros vocacionais, etc. É muito salutar o que em algumas ilhas se tem vindo a realizar, envolvendo setores específicos, tais como: Encontros/Festas da Família, Jornadas da Juventude, Encontro vicarial de Catequistas, Encontro inter paroquial de Acólitos. É por aqui o caminho!

A Igreja Casa de Comunhão, sente-se no concreto em momentos como esses que renovam a consciência de sermos Igreja, família de Deus. Também o Senhor reuniu muitas vezes à sua volta grandes multidões. Temos os olhos postos na JMJ Lisboa 2023, que será um desses momentos ímpares na vida do jovem cristão. Assim, não deixa de ter um lugar privilegiado o apoio aos nossos jovens e desejando muito que possam participar em bom número neste grande evento mundial. A preparação e o envolvimento nestas jornadas – sob o lema Maria levantou-se e partiu apressadamente (Lc 1, 39) - poderiam ser uma boa oportunidade para um despertar vocacional entre os jovens. Porque não explorar mais esta vertente mariana na vida dos jovens e adolescentes em ordem a uma pastoral vocacional?


Valorizar as pequenas comunidades (aldeias e bairros) também é muito importante, mas sem fragilizar a dimensão da Paróquia ou Diocese, a comunidade mais alargada e de maior experiência eclesial. É necessário, tanto quanto possível, pôr em relevo a Igreja Paroquial, a sede da pastoral e a sua condição de matriz. Salvo raras exceções, por razões de distâncias ou outro motivo válido, que os sacramentos e os sacramentais se realizem na Igreja Paroquial (baptismos, crismas, casamentos, momentos fortes do ano, como o ciclo do Natal e da Páscoa).

Nas cidades ou Paróquias próximas, que o sentido de vizinhança e pertença à mesma Igreja se estreitem, podendo ser melhor aproveitados os meios e as sinergias, como por exemplo as conferências quaresmais, cursos de formação, preparações para os sacramentos. Para isso, é necessário que os Párocos, os líderes, as Vigararias estejam abertos às dinâmicas de comunhão e participação, envolvendo, aproximando e criando redes próprias da condição eclesial. Temos notado que os jovens e os casais testemunham uma alegria enorme e um rejuvenescer da fé quando experimentam a vivência de comunhão mais alargada.


Que ao jeito próprio do Sínodo, o espírito de comunhão, partilha e pertença à mesma Igreja, «faça germinar sonhos […], florescer a esperança, estimular confiança, faixar feridas, entrançar relações, ressuscitar uma aurora de esperança, aprender uns dos outros e criar um imaginário positivo que ilumine as mentes, aqueça os corações, restitua força às mãos»! (Discurso do Papa Francisco na Abertura do Sínodo dedicado aos Jovens, 3.X.2018).


Prossigamos juntos mais esta etapa pastoral, como discípulos missionários, sendo sinal duma Igreja à escuta e em caminho; seguros de que «o destino futuro da humanidade está nas mãos daqueles que souberem dar às gerações vindouras razões de viver e de esperar» (Gaudium et spes, 31).

Mindelo, 20 Agosto de 2022 - Memória Litúrgica de S. Bernardo, Abade e Doutor da Igreja

† Ildo Fortes, 
Bispo de Mindelo

Fonte: Diocese de Mindelo

 



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