REFLEXÃO DA LITURGIA DOMINICAL POR PE PAULO VAZ

2019-08-25       Actualidade       Opinião  

  

A liturgia de hoje convida-nos a contemplar a grande esperança escatológica de uma salvação universal e inclusiva de todos os povos cujo caminho que possibilita à vida e à felicidade é a «porta estreita». Hoje, o Senhor quer dilatar os limites dos nossos corações e alargar os nossos horizontes, fazendo-nos ultrapassar a mentalidade egoísta e mesquinha, e dando-nos a oportunidade de entrarmos no caminho do encontro da fraternidade e da paz. É desejo de Deus que todos os homens sejam reunidos junto d’Ele no amor e na comunhão como povo e conduzidos à sua gloria. É aqui é que está a verdadeira vocação e missão de todos baptizados, que enquanto povo de Deus em marcha, caminha para o Reino à luz do Senhor. Caminhar à luz do Senhor desperta em nós o sentido da Igreja, da família e da comunhão. Deus não nos quer estrangeiros nem exilados. Nos quer uma família que se reúne e se encontra em comunhão e fraternidade. Neste sentido, cada um de nós, pelo baptismo, somos chamados a integrar o povo de Deus neste mundo novo prometido por Ele, onde quer reunir todos os povos de forma inclusiva na sua casa. É uma visão inclusiva do acolhimento e da comunhão na fraternidade entre os povos. 

Deus quer acolher e oferecer a sua salvação a todos os povos e todos os que O aceitam pela obediência da fé O acolherão na sua vida e entrarão ao seu serviço. Este texto de Isaías 66, 18-2 é conectado com a definição conciliar, na GS 22: o homem é iluminado por Cristo e encontra n’Ele a plenitude e compreende que está chamado a formar parte do novo povo de Deus e a Igreja, e inserido em Cristo pelo baptismo, fica ligado de forma inclusiva ao Salvador e à salvação (Cf. LG 13). Formar parte do novo povo de Deus implica a fé como resposta sincera e decisiva a Deus na aceitação de Cristo nas nossas vidas. Isto exige uma sincera conversão, transformação interior, configuração com Ele e mudança de vida. 
O caminho proposto para formar o novo povo de Deus é a adesão a Cristo e ao seu projecto salvífico em favor dos homens e da humanidade que nos dá acesso ao banquete do Reino. É preciso que a partir do nosso baptismo nós nos comprometamos com o projecto de salvação que nos é oferecido pelo Pai em Jesus e que a Comunidade cristã e a sociedade onde estamos inseridos sejam para nós e para todos plataforma de acolhimento, lugares de dignificação da pessoa humana e berços da fraternidade. É vontade de Deus que haja estas atitude e valores – a igualdade, solidariedade, justiça, liberdade, respeito, ajuda mútua, etc – sejam caminhos que nos conduzam à porta estreita e nos possibilitam entrar por ela para alcançar a Salvação que Jesus nos veio trazer. 
Caríssimos irmãos, sejamos conscientes e coerentes com a nossa vocação e identidade cristã. Em Deus não vale e nem serve os títulos e cunhas. Não vale clamar, reclamar, exigir com títulos e reconhecimentos diante de Deus que de nada nos servem. Para entrar no banquete do Reino dos céus não basta dizer «Senhor, Senhor», é preciso «fazer a vontade do Pai que está nos céus». A vontade de Deus é a obediência à sua Palavra no acolhimento, no serviço do amor, na fraternidade, é reunir o povo de Deus como a galinha reúne os seus pintainhos debaixo das suas asas e integrá-los na comunidade dos irmãos, é abraçar a cruz até as últimas consequências em favor dos homens e da humanidade. 
Diante de Deus, o título que realmente nos serve é as nossas mãos cheias de amor e de caridade para com o próximo, pobre e necessitado. Por isso, a vida cristã é um caminho de cruz e ressurreição que exige luta e perseverança no caminhar para entrar na por estreita. Hoje, todos buscam o fácil e sem esforço. O caminho de salvação é aquele de esforço e combate, isto é, de luta permanente. Cristo nos avisa que Ele é o dono da casa e que a porta é estreita. Por isso, muitos são os caminhos que conduzam à morte e à perdição. Viver a coerência e autenticidade da vida cristã exige hoje caminhar no sentido contrário, ir contra a corrente para perceber que a porta do Reino dos céus e da salvação de Deus, pode fechar em qualquer momento (Lc 13,25) e corramos o risco de ficar fora por negligência e descuido perante a oferta salvífica de Cristo. 
Estar dentro da casa não significa estar dentro da salvação de Deus se descuidemos a nossa relação com Ele e o cuidado dos irmãos, e nos relaxemos na vigilância de uma conversão permanente na vida cristã. Podemos estar dentro da Igreja, seguros dos nossos títulos, mas sem amor e sem caridade estamos fora dela. Dramático é pensar que eu estou dentro e resulta que estou fora, porque transformei as minhas escolhas à medida do mundo e das suas propostas. Isto significa estar fora mesmo crendo da nossa parte que estamos dentro, e a nossa sorte pode ser igual a dos pagãos e dos impios, que gritam à porta «Senhor, Senhor, abre-nos» e de dentro vem a resposta do dono da casa «Não vos conheço». O sinal através do qual Deus nos conhece e nos reconhece é a fé carregada de amor. 
Caríssimos, amemo-nos uns aos outros e acolhamo-nos mutuamente, que Deus é amor, porque do contrário o Reino nos será tirado e entregue aos de fora que darão fruto de fé e conversão. 
Bom domingo a todos!



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