REFLEXÃO DA LITURGIA DOMINICAL COM PE PAULO VAZ

2019-03-10       Actualidade       Igreja  

  

Caríssimos irmãos em Cristo Jesus;É este o tempo oportuno e favorável da nossa preparação para celebrar a Santa Pascoa. É este o tempo de preparação para a ressurreição e tudo está orientado à Ressurreição do Senhor. É este o tempo do grande “kairós” divino, porque o mesmo Senhor nos concede a oportunidade de deixar-nos moldar interiormente por Ele, de maneira que o nosso amor a Deus e ao próximo seja sincero, a nossa caminhada de fé seja consciente e a nossa oração tenha a força vincular da comunhão e da comunidade, e, através das súplicas, orações e práticas das boas obras possamos alcançar a Cristo, Dom de Deus. 

Este itinerário quaresmal é uma oferta de Deus para nos prepararmos de coração sincero, espírito humilde e deixando-nos guiar pela sua Palavra. É da vontade de Deus a nossa conversão, nossa proximidade e nosso regresso à sua casa e ao coração da sua misericórdia. É sua vontade abrir-nos caminhos de oportunidades através do deserto da conversão por meio de Jesus Cristo seu Filho e guiados pela graça e o poder do Espírito Santo. 
A Liturgia de hoje indica-nos que Jesus, guiado pelo Espírito Santo, é conduzido ao deserto para ser tentado pelo Diabo, fazendo-nos perceber que a caminhada quaresmal, como um tempo de vigilância e receptividade, onde o nosso coração, a nossa vida e todo o nosso ser deve estar à disposição do Espírito Santo que em todo momento nos concede a força para caminhar apesar das tentações, é também capacidade e dinamismo para vencermos as adversidades e as tentações do inimigo. Por isso, só sob a escuta da Palavra de Deus Pai, manifestada no Filho, iluminados pela luz da ressurreição e guiados pelo poder do Espírito Santo, podemos fazer uma verdadeira caminhada quaresmal. É a partir destas premissas que nós, como cristãos que pelo Baptismo formamos a única Igreja de Cristo, estamos chamados a associar-nos a este tempo de penitência, vivendo-o na autenticidade da fé, numa esperança firme, profunda e sincera, transbordando-se em desejo de mudança radical de atitudes, comportamentos e de uma vida velha e caduca.   
É preciso deixar-nos guiar pelo Espírito Santo, porque Ele habita dentro de nós pelo nosso baptismo e nos acompanha em todas as circunstâncias da nossa vida. É no deserto que o Senhor nos fala ao coração através da escuta atenta da sua Palavra, renova connosco a Aliança, dando início a sua obra. A maior obra de Deus é Jesus Cristo e a nossa conversão é resultado da sua nova obra em nós, por meio do Espírito Santo que nos habita. É preciso que o nosso itinerário quaresmal esteja bem definido para que o deserto não seja só lugar de passagem, mas tempo propício e favorável da nossa conversão e do nosso encontro com Deus e com os irmãos. Ir ao deserto com Cristo implica deixar-nos guiar pelo Espírito Santo nos caminhos da quaresma para assim, com Ele, alcançar o patamar da verdadeira vida. 
O Evangelho deste Domingo, de uma forma súbtil e pedagógica, nos introduz nas tentações de Jesus, indicando-nos o Deserto. O Templo é Monte alto como lugar de tentação, que na tradição hebraica estão vinculados à escatologia apocalíptica, isto é, ao fim dos tempos. O Deserto é lugar da acção e da exortação de João Baptista ao povo de Israel, da sua chamada incessante à conversão e é no deserto que pela poderosa força de Deus que habita em Cristo Jesus manifesta e revela a sua identidade divina diante do tentador, dizendo: “Está escrito”; “não tentarás o Senhor teu Deus”, “afasta de mim, Satanás”, “porque está escrito”. 
O poder da Escritura, Palavra viva de Deus Pai, manifestado no Filho e no dinamismo do amor do Espírito Santo, nos ajuda a vencer nos nossos dias todas as astúcias do Diabo que nos engana e aprisiona, indicando-nos ao pecado da barriga, do poder e da grandeza. Que o nosso caminhar no deserto não seja para desobedecer a Deus, mas sim para escuta-Lo; que não seja para tentar a Deus, mas para deixar-se guiar por Ele. Por isso, o tempo quaresmal há-de ser para nós a vida toda de deixar-nos habitar por Deus e guiar-nos por Ele, guiar-nos nos momentos de felicidade, de provação e de luta. Só por Ele é por meio d’Ele, podemos vencer a batalha contra o maligno. 
Neste tempo de Quaresma, é preciso entrar na dinâmica da renúncia de si mesmo, deixar os prazeres do estômago para encher-nos de vida que brota do Espírito. Saber saborear, como Cristo, a obra nova de Deus que nasce da Escritura, porque nela está escrito que “o homem não vive só de pão mas de toda a palavra que sai da boca de Deus”. É essa palavra que nos sustenta ao longo do nosso caminhar quaresmal e nos ilumina com a vontade firme e no cumprimento dos bons propósitos ao encontro de Cristo Ressuscitado. 
Nós, como cristãos, estamos sujeitos à tentação e seremos tentados toda a nossa vida, porque o Filho de Deus foi também tentado pelo facto de ser Filho de Deus. Os filhos de Deus pelo batismo também serão tentados, mas pela força e o poder de Deus pela escuta atenta da Palavra da Escritura e pela renúncia constante de si mesmos para colocar-se ao serviço do amor e do bem vencerão. Desde o nosso baptismo até ao amor pela nossa configuração com Cristo a intenção do tentador é afastar-nos de Deus e do seu amor. A obediência da fé nos há-de ajudar a manter-nos firmes no cumprimento dos mandamentos do Senhor porque assim está estrito.
Cristo se manteve fiel a Deus e obediente à sua Palavra até ao fim, pondo-se ao seu serviço e ao serviço dos irmãos e não se deixou iludir pelas propostas enganosas do mundo e do Diabo. O Diabo nos propõe ofertas enganosas e cativantes. O pão da discórdia e não da unidade, o pão que não nos sacia e nem constrói a comunidade e a fraternidade. O diabo nos propõe todos os dias a ilusão de poder e grandeza, as glórias e reinos deste mundo, treinando-nos nas atitudes e comportamentos injustos e opressores. Todas as propostas do Diabo têm uma intenção clara: porque somos baptizados em Cristo e temos em nós a filiação divina, Ele quer a toda custa e a qualquer preço nos afastar de Deus. Infelizmente, hoje, muitos se deixam arrastar pelo Demônio, abandonando a Deus e a sua proposta de vida e sentido. 
É preciso estarmos receptivos à Escritura feito homem para vencer o Diabo, porque “está escrito, não tentarás o Senhor teu Deus e só a Ele adorarás”, e nunca deixar-nos fascinar pela grandeza e pelo desejo desenfreado de poder. Deixando-nos inserir em Cristo, vivenciando o nosso baptismo com a ajuda da sua graça, poderemos vencer com Ele as insídias do maligno, anunciaremos com Ele a Palavra de Deus e, a proximidade do seu Reino, realizando nas nossas vidas e através do nosso testemunho as obras de Deus Pai. Bom domingo a todos!



Notícias relacionadas