REFLEXÃO DA LITURGIA DOMINICAL - COM PE PAULO BORGES VAZ

2019-02-10       Actualidade       Igreja  

  

Celebra-se hoje, 10 de Fevereiro de 2019, o V Domingo do Tempo Comum  - Ano C, e o Pe Paulo Borges Vaz, Vigário Geral da Diocese de Mindelo e Pároco de São Vicente e Santo António, ilha de São Vicente, se disponibilizou para reflectir com todos a liturgia deste domingo.


Caríssimos irmãos em Cristo Jesus,
Neste Domingo V do Tempo Ordinário, a liturgia é dinâmica e pertinente. Deus toma a iniciativa e vem ao encontro do seu povo pecador, como expressa a primeira leitura, na Comunidade de Corinto como ouvimos na Segunda Leitura do Apóstolo São Paulo e é Jesus que vem procurar os homens famintos de Deus, necessitados de O ouvir a chamar os seus primeiros discípulos, dando-lhes a missão de serem pescadores de homens. 
Caríssimos, os corações que amam e desejam conhecer e ver a Deus o verá e o encontrará no meio de adversidades e no meio de um povo pecador. Nós caminhamos com os outros, com a nossa fragilidade, se juntam também à fragilidade dos outros. É assim que o profeta Isaías conseguiu ter uma visão da teofania de Deus no seu templo santo, dentro do contexto de uma grande liturgia. DEUS, na sua grandeza e santidade, encheu o templo. Isaías percebe a presença de Deus, capta a sua proximidade, enxerga que era preciso uma mudança radical de vida tanto da sua parte como na vida do povo. Ele se dá conta que Deus se aproxima de toda a humanidade na sua fragilidade, mas que bom que a humanidade se desse conta da sua fragilidade e se colocasse à disposição de Deus para ser purificada, perdoada e salva radicalmente. 
Isaías enxerga a sua doença, o seu pecado e compreende que o povo precisa purificar-se. Sente a voz de Deus que lhe chama para uma missão concreta que é anunciar ao povo uma radical conversão e purificação dos seus pecados, mas para isso ele precisa ser purificado e habilitado por Deus para essa missão concreta. É preciso, caríssimos irmãos, pedir insistentemente a Deus nosso PAI para que nos purifique e nos habilite primeiro para reconhecê-Lo, uma vez feito, para sermos purificados e habilitados para sua missão concreta, prática e eficaz no mundo, na Igreja e na sociedade que nos toca viver. 
Isaías não sé refugia no imaginário da sua bondade ou da sua santidade. Ele, diante da Santidade de Deus, se reconhece frágil e pecador, pede auxílio. DEUS, que nunca abandona o homem à sua sorte, toma iniciativa através de Jesus seu Filho que pela sua paixão e morte na Cruz nos purifica com o seu amor e abrasa-nos com o Espírito Santo. É a consciência de quem está atento à voz de Deus e compreende a sua situação caduca, mas sem abandonar a possibilidade de renovar-se e sentir-se renovado para a missão concreta que Deus lhe pede. Isaías toma consciência da sua fragilidade e da sua pequenez: «sou um homem pecador, de lábios impuros e que habita no meio de um povo também de lábios impuros». Diante do Mysterium Tremendum e Fascinante, Isaías compreende o sentido do chamamento, do seu chamamento, toma consciência da sua fragilidade e se coloca completamente à disposição de Deus e da Sua missão. Compreende que Deus precisa dele mais consciente e comprometido com a realidade do seu povo e da sua gente, para isso era preciso que alguém fosse enviado e Deus toma iniciativa para purificá-lo e enviá-lo como Profeta para anunciar e falar em seu nome. 
A grandeza divina nos sobrepassa, é diante dela que nos sentimos pequenos e descobrimos com magnitude a nossa pobreza e os nossos pecados. Foi isto que se passou com o profeta Isaías, mas Deus que conhece o interior do coração e compreende o seu desejo mais profundo, vem em nosso socorro e nos auxilia com a sua graça restaurando-nos, habilitando-nos, recompondo-nos e nos envia para realizarmos com valentia a sua Palavra libertadora e Salvífica a todos os corações receptivos que captam com alegria e temor a sua presença. Uma vez que captamos isso, experimentamos a sua grandeza e podemos ouvir «quem enviarei?» do Senhor, então estaremos em condições de responder como Isaías: «envia-me, Senhor, e aqui estou»;
 Na segunda leitura, nós recebemos da Comunidade Cristã uma tradição real e histórica de fé transmitida por São Paulo que é a Eucaristia. Os modos como se deve celebrar, a forma como se deve posicionar-se perante Ela... São Paulo nos exorta, na forma correcta, como devemos viver a Eucaristia, porque Ela faz Igreja e comunidade. Ela nos une em família de Deus e nos constitui um único corpo indivisível da Comunidade Cristã que, por sua vez, é Corpo Místico de Cristo. Nele está presente o Cristo Jesus Vivo e Ressuscitado, que apareceu aos discípulos, aos irmãos e a Paulo, em último lugar. 
A Eucaristia é um Sacramento de fé, onde Cristo se revela a sua presença presente na comunidade dos irmãos e nos faz participantes da sua ressurreição. Cada Domingo acontece, para nós na comunidade, a morte e a Ressurreição, onde Cristo se faz presente e real para todos os participante num todo do seu Corpo - Ecclesia. Todos nós somos transubstanciados e alimentados por Ele para sermos um só na mesma comunhão do seu corpo e do seu Sangue, no corpo Ecclesia da sua Igreja. Nós que participamos deste mesmo Pão e deste mesmo Cálice somos para o mundo alimento que mata o egoísmo, cria desejo generosidade para a partilha fraterna, purifica o homem do sincretismo religioso, estimula o desejo de acreditar em Cristo que nos concede o dom da fé e nos fortalece na comunidade...
Fazendo crescer em nós o dom da fraternidade é o que a fé faz em nós como fez em São Paulo. Ele, cativado pela presença de Cristo, nos diz hoje que só a fé em Cristo e na sua Palavra nos fará ver a sua presença, uma presença que nos é revelada através das moções da graça divina em nós. Portanto, hoje, mais do que nunca, devemos tomar consciência que o Senhor quer manifestar a sua presença em nós e basta só deixá-Lo agir para que a graça d’Ele recebido no nosso baptismo não seja inútil, senão fecunda, para que possamos dar frutos de conversão e fé para que a própria Eucaristia seja para nós lugar de revelação e manifestação da presença divina no meio do seu povo. 
Viver a Eucaristia e da Eucaristia nos compromete. Aquele que é promessa fiel comprometeu-se connosco e se fez, pela sua Morte e Ressurreição, promessa realizada de Deus para nós e necessidade de ser anunciada e comunicada a todos os homens que, na fé O acolhe e O aceita de coração sincero, de maneira que Ele se realize em nós o mesmo que fez em São Paulo, sobreabundância de dons e carismas para amar e servir aos irmãos mais que todos os outros discípulos. 
É preciso deixar que a graça de Deus que recebemos no baptismo desenvolva em nós e dê frutos de 100, 60 e 30. Porque nos foi dado sem medida e a medida da graça é Jesus Cristo, a superabundância de Dom Divino. Que saibamos, caros irmãos, deixar alcançar pela graça divina e trabalhar para o bem comum dos irmãos de maneira que o dom recebido por nós não seja estéril no nosso coração e seja fecundo e aproveitado para todos os homens e a humanidade. Por isso, é necessário desinstalar-nos e fazer-se ao largo, ir ao outro lado do mar como nos pede o Evangelho. Estamos demasiados habituados a viver de modo sedentários e cómodos, contentando-nos com o mínimo dos mínimos e sem capacidade para ambicionarmos mais e mais. São Paulo nos diz que devemos ambicionar coisas melhores que é o AMOR. 
O amor nos ajuda a desinstalar-nos, quebrar barreiras, derrubar o preconceito, o racismo, acaba com o egoísmo e nos leva ao encontro do Outro (Deus) e dos outros. A pedagogia divina nos ensina… JESUS leva os seus discípulos, com Ele, ao outro lado do mar. No outro lado está o diferente de nós, está o povo de pecadores, os excluídos, os da região dos gracejos e da Decápole. Do outro lado está os que não têm voz e nem vez, estão os indiferentes e os que não acreditam em nada. É preciso que os cristãos, nós que dizemos que Jesus é o Senhor, tenhamos a ousadia de Jesus, de irmos ao encontro dos irmãos que precisam de nós na força da palavra de Deus que nos guie e se faça mais profundamente presente nas nossas vidas, despertando em nós e fazendo crescer em nós a autenticidade da nossa vocação e o sentido profundo da nossa entrega ao serviço da Palavra e do Anúncio. É do outro lado do mar que possamos aprender a ver a vida, a humanidade, os homens, a comunidade dos irmãos com outro olhar. 
A nossa percepção das coisas e da realidade concreta de cada um é percebida de outro modo e ângulo. É próprio do outro lado que compreenderemos o quê é que significa ser Discípulos: discípulos na obediência da fé, acolhendo e aceitando a palavra de Deus na nossa vida; discípulos acreditando na Palavra; discípulo para entrar mar adentro para pescar; discípulos para aceitar os desafios e dificuldades do nosso ministério; discípulos para purificar-nos das indiferenças, críticas e injúrias do povo de Deus; discípulos porque a missão não é nossa; discípulo porque o Senhor está connosco sempre na Barca e ela não se afunda; discípulos…
É preciso que Jesus esteja presente na nossa missão, na entrega ao serviço, na nossa dedicação, compromisso e empenho. É preciso que Ele esteja presente porque, do contrário, será sempre fracasso e o barco da missão afundará. Tenhamos presente a atitude de Pedro, num primeiro momento parece que resiste, porque passaram a noite a trabalhar mas não conseguiram nada, trabalho árduo da missão de evangelizar, mas o Senhor nos convida uma e outra vez a encontrarmos novas formas de falar, novas pedagogias, novos métodos e novas linguagens. Se Ele está presente no Barco connosco a pesca será abundantíssima. Por isso, é necessário confiança da fé para acolher, aceitar e acreditar na Palavra de Deus que é viva e eficaz, que tudo recria e chama à uma realidade nova: pescar muito para o Reino dos Céus. 
Somos feitos discípulos pelo Baptismo e a todos nos incumbe de forma directa ou indirecta a missão da Igreja. É preciso o nosso engajamento na vivência do nosso discipulado baptismal para sermos, com Cristo, pescadores de homens como foi Pedro, André, Tiago, João e muitos outros no chamamento que Jesus lhes fez. Sejamos ousados, lancemo-nos na aventura da fé e aceitemos Cristo na vossa vida, porque Ele, por meio da graça divina, transformará a nossa existência para o serviço e amor dos irmãos, da Igreja e da Comunidade no qual pertencemos. Com Cristo, a nossa vida terá os seus desafios e as suas adversidades porque a vida é assim, mas estará segura no Senhor, posto que Ele é a estabilidade do nosso Barco, é a nossa força.
Da nossa luta na pesca e na adversidade das ondas, Cristo, no Espírito, assegura a nossa missão e garante o fruto da sua realização. Bom domingo a todos!





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