RECORDANDO DONA MYA DE RIBEIRA DE JULIÃO…

2019-06-25       Actualidade       Igreja  

  

Diz o Livro da Vida que “a soma da nossa vida é de setenta anos e os mais robustos chegam aos oitenta”, mas existem pessoas que desafiam o versículo décimo do salmo noventa, enganam as horas do tempo, escondem-se das leis da natureza e atingem um século de vida. Maria Joana Rodrigues, natural de Paul de Santo Antão e residente em Ribeira de Julião, São Vicente, carinhosamente conhecida por Dona Mya, é um exemplo vivo de vida para além do tempo.

Com cento e onze anos de idade, Dona Mya ainda tem o seu repertório de mazurcas, valças, contra-danças, coladeiras e outras tantas melodias da cultura musical de Cabo Verde. Ainda até dá umas pernadas d’bói agarrada na sua bengala.
Mulher forte, rija e corajosa, Dona Mya tem um arquivo belíssimo de histórias eternizadas n’margura e no sacrifício de uma vida dada ao trabalho. Ela é, por excelência, aquilo que é a identidade da mulher cabo-verdiana. 
Antes de abrir o seu livro, ela desculpa-se ao dizer que não tem histórias para contar porque, antigamente, o trabalho não lhe dava tempo de contar histórias e, hoje, a história que tem para contar é o prato, o copo e a colher. Mas se ela começar a cantar uma mazurca ou uma valça, já terá muitas histórias para contar.
Mãe de dez filhos e alguns deles já falecidos, Dona Mya conheceu e percorreu as ribeiras e ladeiras do Paul com m’nine pendród na costa, a carregar pedras, café, cana-de-açucar, milho e feijão, para assim sustentar os filhos. Como ela mesma diz: “vida ne Paul d’outrora era carregá carga”.
Não foi para escola porque antigamente as mães labutavam para criar os filhos e os pequeninos, diferente de hoje, até ajudavam. Por isso, em vez de estar à caminho da escola, estava de cargas nê cucruta d’cabeça a levar para o Passo (pequena localidade de Paúl).
Mudou-se para São Vicente há trinta e tantos anos, mas continuou os seus serviços diários. A filha com quem vive, saía para o trabalho de manhã e era a Dona Mya que tomava conta da casa. Cozinhava, limpava, cuidava dos netos…
A história de Dona Mya não termina por aqui. Há catorze anos que a filha Isabel é acamada e Dona Mya tem desempenhado com rigor e empenho a sua responsabilidade de mãe a cuidar da filha. É verdade que mãe é pa tud temp!
Apesar da idade, Dona Mya pouco preocupa os familiares com a sua saúde. Ela tem uma saúde de ferro. Contraria, mais uma vez, o Salmo noventa que diz que depois dos oitenta anos, “a grandeza dos anos não passam de atribulação e miséria”. 
“Cento e onze anos não são cento e onze dias”, para trás ficou um século de vida, histórias, recordações, memórias e saudades. Dona Mya diz que sente saudades dos tempos que já não voltam, saudades da sua juventude, saudades de dançar uma contra-dança e… saudades do trabalho.
O rosto já está  coberto de rugas, a voz rouca, poucos cabelos, um pouco caracunda; mas, uma memória surpreende e uma dinámica extraordinária é aquilo que caracteriza esta centenária. Ela é animada, alegre e brincalhona… 
No Natal de 2017, Dona Mya nos dizia que a única prenda que queria pedir a Deus era a morte, uma vez que parece, dizia ela meio a brincar, «Deus já skecê d’mim». Deus não a esqueceu dela e, por isso, a chamou para descansar dos seus longos anos de vida e de trabalho. Paz à sua alma!

OBS: o texto foi escrito em 2017, excepto do último parágrafo.


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