PE PAULO VAZ: «PARA UMA PARÓQUIA CRESCER, PRECISA DO ENGAJAMENTO E ENVOLVIMENTO DE TODOS OS SEUS FILHOS»

2020-06-13       Actualidade       Igreja  

  

A paróquia de Santo António, ilha de São Vicente, a mais nova paróquia da Diocese de Mindelo, erigida no dia 05 de Fevereiro de 2017, celebra hoje, 13 de Junho, o Padroeiro, num momento de grandes desafios para todos por causa da Covid 19. A celebração de Santo António, este ano, decorre sem festa e sem as habituais actividades de todos os anos, será presidida por Dom Ildo Fortes, Bispo da Diocese de Mindelo. Renascer-SV quis ouvir o pároco, Pe Paulo Vaz, com o objectivo de saber como está a funcionar a mais nova paróquia da Diocese de Mindelo.

Renascer-SV: A paróquia de Santo António é a mais nova da Diocese de Mindelo. Qual é a avaliação que faz desde a elevação da comunidade à categoria de paróquia?
Pe Paulo Vaz: Faço uma avaliação muito positiva. A paróquia de Santo António é uma comunidade muito viva e dinâmica. Nela, existe gente competente e que muito pode dar à sua paróquia e à sua comunidade. Tenho o privilégio de contar com colaboradores, a quem muito agradeço, e que podem ser/dar muito mais à comunidade. No entanto, verdade é que a paróquia poderia estar muito mais desenvolvida se tivesse um sacerdote dedicado somente à ela. A presença exclusiva do Pároco faz muita diferença numa comunidade paroquial. Mas também a paróquia não é só o pároco. O sacerdote é o acompanhante e guia da comunidade. Neste sentido, em Santo António, constata-se também uma certa negligencia na responsabilidade. A impressão que eu tenho é que muitos ficam à espera que outros façam as coisas em vez de dar o seu contributo para o bem da sua comunidade e da sua paróquia. A paróquia, para crescer, precisa do engajamento e envolvimento de todos os seus filhos e filhas, de todos os baptizados. Quando isso se dá, o pároco é feliz e a comunidade cresce em certeza, dinamismo, fé amor e caridade. É o sonho e o desejo de qualquer pároco ter uma paróquia viva e contar com o apoio e colaboração pastoral de todos os seus paroquianos.

RSV: Erigir uma paróquia implica ter muitos recursos (humanos, financeiros, pastorais, lugares de culto, etc.). A paróquia já conta com as mínimas condições? Já pode andar com os seus próprios pés?
PPV: A paróquia de Santo António já conta com o mínimo para funcionar. Tem uma pequena estrutura que serve de referência celebrativa, serve para encontros, reuniões, ensaios, etc. Mas, uma paróquia, para funcionar bem, necessita contar com recursos humanos que se implicam profundamente na evangelização paroquial. Os recursos humanos são os mais importantes de todos os outros. Dizia antes que era e é ainda uma comunidade viva, mas, como todas as comunidades, os paroquianos têm a tentação de sentirem-se cansados porque não há substitutos. Muitos podem e poderiam dar mais, engajar mais na sua paróquia para o bem da sua comunidade, mas se contentam com apenas participar na missa e esperar para ver o que que acontece.

RSV: Quais são os maiores desafios da paróquia de Santo António?
PPV: A paróquia de Santo António conta com vários desafios: pastorais, estruturais e económicos. Desafio pastoral, pela sua dispersão e contar com poucos recursos humanos para um desenvolvimento de uma pastoral integral; desafio estrutural, por não contar com as estruturas físicas adequadas que estimulem o encontro, reuniões, etc; desafio económico, por ser uma comunidade nova, mas também pobre. Os paroquianos têm consciência de tudo isto, existem grupos que estão preocupados em angariar fundos para a sustentabilidade da paróquia, mas é preciso uma maior consciência. Temos um Conselho Económico que não funcionou bem e uma Equipa de Angariação de Fundos para a paróquia que também não tem funcionado bem. Quando assim é, faz-se muito difícil fazer qualquer coisa. Mesmo com estímulo e acompanhamento do pároco. As coisas funcionam e funcionarão se os paroquianos tomarem a sério a sua responsabilidade de baptizados e vivê-la com alegria ao serviço para o bem da sua comunidade. Enquanto não haja essa consciência dificilmente as coisas funcionarão. 

RSV: Este ano, a paróquia celebra o Santo Padroeiro sem festa. Como estão os preparativos da celebração? Haverá algum programa especial?
PPV: Este Ano Santo, Santo António será celebrado sem festa. Isto porque, tudo aquilo que pode ser visto como perigoso para expansão da Covid19, procuramos evitar. Só haverá a missa da festa. Procuramos evitar a procissão, o desfile com Santo António pelas ruas, a peregrinação da imagem pelas casas dos paroquianos, etc. Só será celebrada a missa hoje, 13 de Junho, às 17h00, no Largo de Santo António. 

RSV: Como as pessoas da paróquia de Santo António têm vivido com esta pandemia?
PPV: As pessoas têm vivido esta pandemia com confiança em Deus. Preocupadas, mas não desesperadas e nem desamparadas. Isto se vê na participação na eucaristia e nas suas preocupações para com os pobres e necessitados da comunidade paroquial. Conscientes do perigo, tomadas as devidas precauções, procuram viver com serenidade este tempo de muita crise económica no seio das famílias mais vulneráveis. A pandemia é um problema real de saúde pública, mas o problema maior não é a pandemia, é a pobreza no qual muitas famílias e jovens são submetidos. Perderam o emprego… a única fonte de sustento vinha do emprego e agora exigem a nossa sensibilidade e solidariedade social para com estas camadas vulneráveis que reclamam a nossa atenção, solidariedade e humanidade. 

RSV: É verdade que a pandemia agravou ainda mais a sobrevivência de muitas pessoas e famílias da paróquia. Qual é a análise que faz da situação de vida dos mais carenciados da paróquia neste momento?
PPV: Sim a Pandemia agravou a situação difícil de muitos paroquianos. Empregos perdidos e situação económica ainda mais agravante. Os que mais sofrem são os idosos e acamados. A estrutura social e solidária das paróquias e as Caritas Paroquiais organizaram-se para responder as necessidades primárias e fundamentais dos paroquianos. Mas, constatamos que as ajudas não são e nem foram suficientes. O problema agora é que, no estado de convergência, a solidariedade tem diminuído consideravelmente. É neste momento que devemos efectivar a nossa solidariedade, fazendo visível e concreto a caridade da Igreja. A fé verdadeira vai sempre carregada de amor e de caridade. Por isso, devemos intensificar a partilha. Não perder de vista o Domingo do Kilo e da Solidariedade paroquial a favor dos mais pobres e necessitados da nossa paróquia.

RSV: O que espera da celebração de Santo António deste ano?
PPV: Que Deus continue abençoando e santificando o seu povo através da vida e do testemunho dos Santos. Que tenhamos a sabedoria que procede da fé para nos ajudar a ser homens e mulheres conscientes e cientes do nosso baptismo que exige configuração com Cristo na vivência responsável e no engajamento frutífero para o bem dos irmãos. Fé, só se ela é ativa, dinâmica e transformante. Que Santo António nos ajude a termos os pobres e indefesos presentes no nosso dia-a-dia, os mais vulneráveis da nossa sociedade para defendê-los e lutar pela justiça. Que a sabedoria de Deus nos tire da indiferença e da ignorância da fé e nos instrua através da Palavra de Deus à procura, em primeiro lugar e acima de tudo, o Reino de Deus e a sua justiça.

Pe Paulo Vaz, pároco da paróquia de Santo António, a analisar o crescimento da paróquia, os aspectos positivos e negativos, e o momento difícil que muitas pessoas e famílias da paróquia estão a atravessar e que exige uma resposta solidária de todos.



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