PADRE PAULO VAZ: «RENASCER PARA A VIDA DE COMUNHÃO E DE FRATERNIDADE»

2019-04-18       Actualidade       Igreja  

  

Celebramos, hoje, a Ceia do Senhor. Subamos, inundados do seu amor, ascendamos com o Senhor à sala do banquete dos irmãos e ao convívio da fraternidade eclesial. Durante esta quaresma, viemos vivendo este tempo de graça em que o Senhor nos concedeu para caminharmos para Ele, na escuta assídua da sua palavra, na vivência dos seus mandamentos. De coração contrito e espírito humilhado caminhemos à luz pascal de Cristo Ressuscitado no desejo firme de mudança para alcançar a verdadeira conversão. Neste dia, todos nós, os baptizados em Cristo, Deus Pai quer renovar de novo connosco a aliança de amor por meio de Jesus, confirmando-nos com o Espírito Santo, para vivermos a plenitude do seu amor, na experiência da filiação, e, assim como Jesus e como todos os que nos precederam na fé, façamos as obras de Deus e anunciemos com a fé, o testemunho e o exemplo que a fraternidade humana é possível e que o amor de Deus, sendo real, nos fará subir até à estatura do Amor divino «Cristo o homem novo», que nos amou dando-nos e permitindo-nos a plenitude da saúde e da libertação na comunhão fraterna e na visão beatífica.

Pelo baptismo, o Senhor ungiu-nos para amar e viver a comunhão fraterna. Gestados no amor para renascer à vida da comunhão e da fraternidade, por assim nos quer o Senhor e assim nos chama a viver e ser Igreja. Igreja que ama e caminha junto nos passos de Jesus-Amor e comunhão por excelência. Procuremos acolher o Deus que nos ama até ao extremo que, em Jesus Cristo, nos surpreende, despertando em nós expectativas, espantos, curiosidades, perguntas e esperanças. Por isso, hoje o Senhor, nesta Ceia Pascal, renova uma vez mais para nós uma aliança de amor, associando-nos, de forma antecipada, à sua Entrega-Paixão-Morte e Ressurreição como vocação e missão: ser para os homens e mulheres do nosso tempo espanto e encanto, graça da libertação, alegria e consolação. 
Podemos perguntar: o quê é que o Senhor Jesus desperta em nós nesta ceia Pascal? Que experiências de encontro, de comunhão e de fraternidade tenho com Jesus, comigo mesmo, com os irmãos e com Igreja? É uma experiência de amor, de plenitude, de felicidade, de humanização, de fé e de salvação? Nesta Ceia, Deus se revela em Cristo o seu amor, a sua proximidade, a humanidade derradeira, à fragilidade humana. Deus se inclina para levantar-nos e nos transmite a missão de amor e servir com alegria, porque nos foi revelado, em Cristo Jesus, o dom de Deus e libertação integral, esta plenitude de vida e felicidade. 
Renascer-se para a comunhão e a fraternidade é deixar-se interpelar por Deus que nos oferece, em cada Pascoa, Cristo Ressuscitado como Kairós divino, o tempo novo e a oportunidade nova, fazendo que Ele seja condição de possibilidade da nossa comunhão e caminho de ascensão para o primeiro andar. É na grande sala alcatifada do primeiro andar que o Senhor nos espera para celebrar a Páscoa connosco, passando profundamente pela nossa vida, purificando-nos dos nossos pecados pelos sacramentos, dando-nos exemplo e testemunho de serviço e caridade, e unindo-nos na comunhão da vida fraterna. Por isso, ceiar com Cristo é responder ao Senhor que nos chama a subir, fazer um caminho de Ascensão, é ir ao encontro dos irmãos para alcançar o coração do amor divino que se nos espera para inundar a nossa interioridade e nos conceder a alegria de sermos amados e salvos por Ele. É na comunhão dos irmãos que Jesus enche e inunda a nossa casa de amor e de sentido permanente de vida, alegria e de felicidade. Ele é quem nos espera inundando-nos pelo bálsamo do Espírito, ungindo-nos no serviço e na caridade com o azeite da alegria e vinho da consolação, inserindo-nos na sua missão salvífica e libertadora dos homens e da humanidade. 
Nesta Ceia, a Igreja faz memória e actualiza o acontecimento fundante da nossa fé. Ela reacende e actualiza a memória da instituição da Eucaristia, do Sacerdócio e da Caridade. A Igreja nos convida a entrar na experiência de um novo ressurgir e nos convida a entrar na dinámica festiva do amor divino que se entrega livremente, concedendo-nos a graça de passar da escravidão para a liberdade, dando-nos a liberdade de recorrer um caminho novo nunca acabado mas sempre a recomeçar. Com Jesus somos chamados «a passar do pecado para a graça, da soleira da porta para a mesa, da morte para a vida em abundancia, da nossa casa para casa de Deus Pai». A Ceia Pascal é abandonar a casa do nosso egoísmo, do nosso orgulho e da nossa autossuficiência para entrar na Casa do amor divino, à Mesa do único Senhor Jesus na fraternidade e na comunhão dos irmãos, especialmente do mais pobres e necessitados. Por isso, em cada eucaristia que se faz realmente presente a Ceia do Senhor e se renova connosco o mandato do Senhor «(…) se eu sou mestre e Senhor, vos lavo os pés; também vós deveis fazer o mesmo: lavar os pés uns aos outros(…)». 
Hoje, o Senhor continua alimentando-nos com o Pão da Palavra e da Eucaristia, e nos convida continuamente a fazermos a sua memória. O pão que comemos e o vinho que bebemos é o Pão e o vinho novo de salvação e da eternidade. Ele nos convida a fazer memória e a actualizar a sua entrega por nós com o anúncio da sua morte como dádiva da vida por amor e para todos. A promessa divina é irrevogável e é para sempre porque Deus é fiel. Nesta tarde, o Senhor Jesus nos acolhe na sua casa, oferecendo-nos o seu amor porque n’Ele tudo é graça, tudo é bondade, tudo é amor de Deus para nós e para a humanidade. Em Jesus tudo é exemplar e pragmático. Ele entrega a vida livremente para poder recebê-la em plenitude. Jesus é o Sacerdote que ama servindo e serve amando aos homens, daí que devemos vivenciar e experimentar a Eucaristia como verdadeira celebração de amor, serviço e caridade, onde depomos tudo o que nos ata e não nos deixa ser livres; onde depomos o desejo de grandeza, do orgulho e a dureza do coração para acolher a vida que nasce do amor, do serviço e da entrega. Cristo deu a vida para receber a vida. Amou-nos tanto que nos mostrou que só o amor é capaz de baixar até ao chão para permitir a subida e a ascensão dos irmãos. Só descendo até ao chão da humildade é que o Senhor nos permite subir à glória do seu amor e experimentar a alegria da fraternidade. 
Nesta Ceia se manifesta para nós a fé, o testemunho e a caridade de Cristo Bom Pastor que dá a vida. Ele se entrega livremente à morte, entregando a vida em favor dos homens para recuperá-la plenamente como o Ressuscitado: «Tomai e Recebei, meu Deus, toda a minha vida e todo o meu ser». Por isso, nesta tarde, cada um de nós é chamado a ter parte com Jesus. «Ter parte com Cristo» é participar no seu supremo serviço de amor até dar a vida para receber a vida. É deixar que o Senhor nos lave e nos purifique até à pureza de vida e, assim, formar com todos o discipulado, a família e a comunidade dos irmãos. Deixemos que o Senhor nos lave para podermos tomar parte em Deus e no seu amor. A Eucaristia desta tarde nos introduz no caminho da Cruz: «Cristo depõe livremente da sua vida entregando-a para poder recebê-la». O Senhor renuncia a Si mesmo para poder recuperar livremente o que Ele é - a vida nova e plenitude de Deus para os homens. Por isso, cada um de nós devemos deixar-nos limpar do orgulho, do desamor, da dúvida, da falta de fé para poder participar de Jesus, participar da sua vida dada em oferta e recebida em dádiva de amor. 
Lavar os pés é a verdadeira transmissão sacramental da missão de Jesus dado a todos os seus discípulos e a todos os baptizados. Por isso, todos nós estamos chamados a dar a vida no serviço e na caridade para os pobres e necessitados para poder receber de Jesus a vida e a plenitude de felicidade na Ressurreição. Jesus faz, ama e serve dando e recebendo a vida: «Como eu fiz, fazeis vós também». Experimentar a Eucaristia como experiência de encontro onde Deus abra as mãos para nós e nos reúne na caridade fraterna. Deus confia em nós e nos atrai à fé e à confiança. Por isso Ela (Eucaristia) é acção de graças. Só quando a Graça (Jesus) nos possui é que podemos dar graças e agradecer. Neste sentido, receber a vida como dom gratuito é dar graças, saber que nada é meu e que tudo nos é dado para partilhar. Cristo deve ser hoje para nós o Centro da nossa vida e das nossas atitudes. Anunciar a sua morte é ver e assumir bem a Cruz de Cristo e anunciar que Cristo viveu e morreu para dar a vida por amor, para sempre e para todos. Hoje o Senhor Jesus nos desafia a lavar os pés a humanidade que sofre, aos idosos, aos pobres e necessitados e deixando-nos transformar pelo seu amor e pela sua comunhão.    
Nesta celebração, caríssimos irmãos em Cristo Jesus, recebemos tantos dons sublimes e é nosso dever partilhar com os nossos irmãos tudo o que Cristo partilha connosco hoje. Iniciamos o Tríduo Pascal e somos todos convidados a viver plenamente, inteiramente e totalmente a vida nova que Deus, mais uma vez, mais um ano, quer infundir em nós. Deixemo-nos renascer para a vida de comunhão e de fraternidade.



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