O estilo de Deus

2015-09-27       Actualidade       Opinião  

  

Um texto fascinante  e simples de José Jacinto Ferreira de Farias, Sacerdote do Coração de Jesus, sobre a crise de valores do mundo contemporâneo. Vale a pena ler e reflectir sobre o mesmo.

Desde o ano 2008 que a crise, entendida sobretudo na sua acepção económica e financeira, é o conceito dominante na sociedade contemporânea. Tem, nesta acepção, um sentido muito negativo, na medida em que tem levado multidões de pessoas para condições de extrema penúria, para as margens da sociedade. Mas o conceito de crise possui também uma acepção que seria necessário pôr em relevo hoje: permitir uma meditação  sobre o que é bem ou mal, digno ou indigno da condição humana.

Os tempos modernos foram marcados pela ideologia do progresso e do bem-estar. Pertenço à geração idealista dos anos 60 em que pensávamos que tínhamos nas nossas mãos todas as condições para alcançar o fim da história, no reino da democracia, da liberdade, do progresso e da felicidade. Pensava aquela geração que havia chegado o tempo em que a ciência e a tecnologia poderiam transformar o mundo, num livro aberto que falava só do homem e das suas possibilidades, ficando a fé em Deus relegada para a inutilidade residual, que só os fracos e os desprovidos de cultura ainda aceitariam.

Como é diferente hoje o espirito do tempo. É verdade que a relação com Deus continua a muitos títulos residual. Mas o facto é que é hoje igualmente residual e frágil a relação do homem com o seu semelhante, que se tornou suspeito e perigoso. Hoje muitos se refugiam numa relação virtual com os que estão longe, ignorando os que estão próximos, gerando-se uma rede virtual de solidões incomunicáveis. É verdade que as redes sociais nos colocam em contacto com todo o universo humano no plano planetário. No entanto, as presenças virtuais não preenchem o mistério da solidão e por isso, pela urgência das presenças reais, talvez seja preciso declamar de novo o poema de John Donne: nenhum homem é uma ilha, isolado em si mesmo.

Em muitos sectores da cultura contemporânea a terra e os animais, na ideologia ecologista e do género, têm mais direitos e protecção do que o homem. Ainda há pouco tempo Isilda Pegado escrevia um notável texto sobre a nova condição defilhos de pai incógnito, «agora não por medo e imposição do pai, mas pelo 'querer da mãe'. A mãe decide que quer ter um filho, só seu, cujo pai fique incógnito (dador anónimo) e faz inseminação artificial a partir do banco de esperma para poder gerar uma criança que é 'só sua'». Esta verificação mostra que estamos em presença de uma sociedade em decadência, pelo menos a partir da nossa visão cristã do mundo e do homem, porque desaparece a noção de paternidade, tanto humana como divina, perde-se a noção da geração, como experiência originária que suporta o nosso ser como filhos, em que não só temos um nome, mas este nome diz uma relação de origem com o pai e a mãe, que têm nome próprio e que nos deram um nome pelo qual nos reconhecemos.

Há tempos alguém me confidenciava que esta ideologia do género, eco-feminista e abortiva, tem como finalidade dar cabo da esquerda, pois é a esquerda que reivindica para si estas medidas fracturantes, que podem ser barulhentas na reivindicação, mas que não têm futuro, pois o futuro é para quem acredita na vida e a serve. Penso que seria melhor que a esquerda ou a direita se debatessem em torno de valores que nos fazem viver e não de reivindicações que fracturam e que matam.

Na sua mensagem para a Quaresma de 2014, o Papa Francisco fala-nos do estilo de Deus e refere três formas de miséria, sendo que a mais grave não é a material, mas sim a moral e espiritual, que representam um suicídio antecipado. Assim como Cristo nos salvou com a sua pobreza, pois foi por ela que Ele nos enriqueceu, assim devemos redescobrir o sentido da pobreza segundo o Evangelho, que é disponibilidade e abertura para o hoje de Deus nas nossas vidas, não antepondo nada a Ele.

O Papa Francisco exorta-nos a vivermos segundo o estilo de Deus, que quer que vivamos como filhos, na Igreja mãe. Não somos filhos de Pai incógnito: é a nossa Mãe, a Igreja, que na sua materna solicitude nos diz quem é o nosso Pai e que O devemos respeitar e amar acima de todas as coisas.

                                            José Jacinto Ferreira de Farias, scj

Fonte: Portal dos Dehonianos

 



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