Nota da CDF sobre a fórmula do Batismo: “Nós te batizamos…” é inválida

2020-09-04       Actualidade       Igreja  

  

Há pouco tempo, a Congregação para a Doutrina da Fé (CDF) tratou de alguns casos da administração do batismo, nos quais foi modificada, aleatoriamente, a fórmula sacramental determinada pela Igreja. Em função disso, a Congregação elaborou as “Respostas a dúvidas propostas”, através de uma nota doutrinal que explica o conteúdo, com o intento de reafirmar a doutrina acerca da validade dos sacramentos, mediante o uso das fórmulas sacramentais aprovadas. Houve esta clara indicação doutrinal no sentido de se suprimir as interpretações e práticas sacramentais desviantes.

A nota doutrinal esclarece que a fórmula alterada, por motivos associados à moda, para “nós te batizamos” – ao invés de “eu te batizo…”, invalida o sacramento, isto é, se for usada no batismo, não haverá batismo. Haverá apenas uma tentativa de batismo.
Ultimamente, realizaram-se batismos com as palavras: “Em nome do papai e da mamãe, do padrinho e da madrinha, dos avós, dos familiares, dos amigos, em nome da comunidade, nós te batizamos em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”.
Ao que tudo indica, a fórmula terá sido alterada para enfatizar o valor comunitário do batismo, para externar a participação dos familiares e dos presentes e evitar a ideia da centralização do poder sacramental no padre, presente no Ritual Romano.
“Alterar a fórmula sacramental significa, ainda, não compreender a natureza mesma do ministério eclesial, que é sempre serviço a Deus e ao seu povo e não exercício de um poder que chega à manipulação daquilo que foi confiado à Igreja com um ato que pertence à Tradição”, reitera a nota.

Confira a nota doutrina, abaixo.


RESPOSTA A DÚVIDAS PROPOSTAS
sobre a validade do Batismo conferido com a fórmula «Nós te batizamos em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo»

DÚVIDAS

Primeira: É válido o Batismo conferido com a fórmula «Nós te batizamos em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo»?

Segunda:
 Aquelas pessoas para quem foi celebrado o Batismo com esta fórmula devem ser batizadas de modo absoluto?

RESPOSTAS

À primeira: Negativamente.

À segunda: Afirmativamente.

O Sumo Pontífice Francisco, durante a Audiência concedida ao abaixo assinado Cardeal Prefeito, em data de 8 de junho de 2020, aprovou estas Respostas e ordenou a sua publicação.Da sede da Congregação para a Doutrina da Fé, aos 24 de junho de 2020, na Solenidade da Natividade de São João Batista.

Luis F. Card. Ladaria, S.I.
Prefeito
✠ Giacomo Morandi
Arcebispo titular de Cerveteri
Secretário

* * *NOTA DOUTRINAL
Sobre a modificação da fórmula sacramental do Batismo
Recentemente, houve celebrações do Sacramento do Batismo administrado com as palavras: “Em nome do papai e da mamãe, do padrinho e da madrina, dos avós, dos familiares, dos amigos, em nome da comunidade, nós te batizamos em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”. Aparentemente, a modificação deliberada da fórmula sacramental foi introduzida para sublinhar o valor comunitário do Batismo, para exprimir a participação da família e dos presentes e para evitar a ideia da concentração de um poder sacral no sacerdote, em detrimento dos pais e da comunidade, que a fórmula presente no Ritual Romano transmitiria. Reaparece aqui, com discutíveis motivações de ordem pastoral, uma antiga tentação de substituir a fórmula transmitida pela Tradição com outros textos julgados mais idôneos. A este propósito, já Santo Tomás de Aquino havia colocado a questão «utrum plures possint simul baptizare unum et eundem», à qual havia respondido negativamente, enquanto praxe contrária à natureza do ministro.
O Concílio Vaticano II afirma que: «Quando alguém batiza, é Cristo mesmo que batiza». A afirmação da Constituição litúrgica Sacrosanctum Concilium, inspirada em um texto de Santo Agostinho, quer reconduzir a celebração sacramental à presença de Cristo, não só no sentido de que ele lhe transfere a sua virtus para dar-lhe eficácia, mas sobretudo para indicar que o Senhor é o protagonista do evento que se celebra.
A Igreja, com efeito, quando celebra um Sacramento, age como Corpo que opera inseparavelmente da sua Cabeça, enquanto é o Cristo-Cabeça que age no Corpo eclesial por ele gerado no mistério da Páscoa. A doutrina da instituição divina dos Sacramentos, solenemente afirmada pelo Concílio de Trento, vê assim o seu natural desenvolvimento e a sua autêntica interpretação na citada afirmação da Sacrosanctum Concilium. Os dois Concílios se encontram, portanto, em sintonia complementar, ao declararem a absoluta indisponibilidade do setenário sacramental à ação da Igreja. Os Sacramentos, de fato, enquanto instituídos por Jesus Cristo, são confiados à Igreja para que sejam por ela conservados. Aparece aqui evidente que a Igreja, ainda que seja constituída pelo Espírito Santo como intérprete da Palavra de Deus e possa, em certa medida, determinar os ritos que exprimem a graça sacramental oferecida por Cristo, não dispõe dos fundamentos mesmos do seu existir: a Palavra de Deus e os gestos salvíficos de Cristo.
Torna-se, portanto, compreensível como no curso dos séculos a Igreja tenha conservado com zelo a forma celebrativa dos Sacramentos, sobretudo naqueles elementos que a Escritura atesta e que permitem reconhecer com absoluta evidência o gesto de Cristo na ação ritual da Igreja. O Concílio Vaticano II estabeleceu ainda que ninguém, «mesmo que seja sacerdote, ouse, por sua iniciativa, acrescentar, suprimir ou mudar seja o que for em matéria litúrgica». Modificar por própria iniciativa a forma celebrativa de um Sacramento não constitui um simples abuso litúrgico, como transgressão de uma norma positiva, mas um vulnus infligido, ao mesmo tempo, à comunhão eclesial e à possibilidade de reconhecimento da ação de Cristo, que nos casos mais graves torna inválido o próprio Sacramento, já que a natureza da ação ministerial exige transmitir com fidelidade aquilo que se recebeu (cfr. 1 Cor 15, 3).
Na celebração dos Sacramentos, com efeito, o sujeito é a Igreja-Corpo de Cristo juntamente com sua Cabeça, que se manifesta na concreta assembleia reunida. Tal assembleia porém age ministerialmente – não colegialmente – porque nenhum grupo pode fazer de si mesmo Igreja, mas se torna Igreja em virtude de um chamado, que não pode surgir do interno da própria assembleia. O ministro é, portanto, sinal-presença d’Aquele que reúne e, ao mesmo tempo, é lugar de comunhão de cada assembleia litúrgica com a Igreja inteira. Em outras palavras, o ministro é um sinal exterior da subtração do Sacramento ao nosso arbítrio e da sua pertença à Igreja universal.
Nesta perspectiva é que se deve compreender quanto afirmado pelo Concílio de Trento sobre a necessidade de o ministro ter ao menos a intenção de fazer o que a Igreja faz. A intenção, porém, não pode permanecer somente no nível interior, com o risco de derivas subjetivistas, mas se exprime no ato exterior que se cumpre, com a utilização da matéria e da forma do Sacramento. Tal ato só pode manifestar a comunhão entre aquilo que o ministro realiza na celebração de cada Sacramento com aquilo que a Igreja faz, unida à ação do próprio Cristo: é por isso fundamental que a ação sacramental seja realizada não em nome próprio, mas na pessoa de Cristo, que age na sua Igreja, e em nome da Igreja.
Portanto, no caso específico do Sacramento do Batismo, o ministro não só não tem autoridade de dispor à vontade da fórmula sacramental, pelos motivos de natureza cristológica e eclesiológica acima expostos, mas não pode sequer declarar que age em nome dos pais, dos padrinhos, dos familiares ou dos amigos, e nem mesmo em nome da assembleia reunida para a celebração, porque o ministro age enquanto sinal-presença da ação de Cristo, que se realiza no gesto ritual da Igreja. Quando o ministro diz «Eu te batizo…», não fala como um funcionário que cumpre um papel a ele confiado, mas opera ministerialmente como sinal-presença de Cristo, que age no seu Corpo, doando a sua graça e tornando aquela concreta assembleia litúrgica manifestação «da genuína natureza da verdadeira Igreja», enquanto «as ações litúrgicas não são ações privadas, mas celebrações da Igreja, que é sacramento de unidade, isto é, povo santo, reunido e ordenado sob a direção dos bispos».
Alterar a fórmula sacramental significa, ainda, não compreender a natureza mesma do ministério eclesial, que é sempre serviço a Deus e ao seu povo e não exercício de um poder que chega à manipulação daquilo que foi confiado à Igreja com um ato que pertence à Tradição. Em cada ministro do Batismo deve ser, pois, radicada não só a consciência de dever agir na comunhão eclesial, mas também a mesma convicção que Santo Agostinho atribui ao Precursor, o qual «percebeu que haveria em Cristo uma propriedade tal que, malgrado a multiplicidade dos ministros, santos ou pecadores, que batizariam, a santidade do Batismo só seria atribuída Àquele ao qual sobreveio a pomba e do qual foi dito: “é Ele que batiza no Espírito Santo” (Jo 1, 33)». Comenta, pois, Agostinho: «Batize Pedro, é Cristo que batiza; batize Paulo, é Cristo que batiza; batize até mesmo Judas, é Cristo que batiza».

Fonte: Site - Redação|Hernany Dias

 



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