MENSAGEM DA QUARESMA 2020 DO BISPO DE MINDELO

2020-02-29       Actualidade       Igreja  

  

Quem tem sede que se aproxime! 
Com estas palavras, Dom Ildo Fortes, Bispo de Mindelo, se dirige aos seus fiéis, como é habitual no início da Quaresmal, interpelando-os sobre a importância da sede de Deus nos nossos tempos. É necessário contemplar Cristo que na Cruz soltou um grito de sede de nós. «E em cada Quaresma esse grito volta a ecoar dentro dos nossos corações. É como se Ele dissesse olha para Mim, volta para Mim, ajusta a tua existência e o teu modo de viver em direcção a Mim, a fonte de água viva, a razão suprema da alegria. Um pressuposto para receber a água viva que brota de coração de Cristo é estar e reconhecer-se sedento».

Eis na íntegra a sua Mensagem Quaresmal:

Mensagem Quaresmal 2020 

Quem tem sede que se aproxime! 
Tenho sede… 
No início desta Quaresma, me vem à ideia aquelas palavras de Jesus na Cruz, pronunciadas nos últimos e dramáticos momentos da Sua vida terrena, mas no auge da sua entrega e do Seu amor por nós: Tenho sede! (Jo 19, 28) Jesus antes de morrer diz-nos: tenho sede. Tenho sede de ti, sede do teu amor, sede da tua vida convertida e redimida. E em cada Quaresma esse grito volta a ecoar dentro dos nossos corações. É como se Ele dissesse olha para Mim, volta para Mim, ajusta a tua existência e o teu modo de viver em direcção a Mim, a fonte de água viva, a razão suprema da alegria. Um pressuposto para receber a água viva que brota de coração de Cristo é estar e reconhecer-se sedento. 

Com a mente e o coração, devemos voltar continuamente ao Mistério
 da Morte e Ressurreição do Senhor. «Fixa os braços abertos de Cristo crucificado, deixa-te salvar sempre de novo. E quando te aproximares para confessar os teus pecados, crê firmemente na sua misericórdia que te liberta de toda a culpa. Contempla o seu sangue derramado pelo grande amor que te tem e deixa-te purificar por Ele. Assim, poderás renascer sempre de novo» (Cf. Papa Francisco, Mensagem para Quaresma 2020, citando a Exort. ap. sobre a Juventude, Christus vivit, 117). São quarenta dias que constituem um tempo especial, uma oportunidade favorável de graça e salvação para nós; por isso, como diz o Pontífice: «não deixemos passar em vão este tempo de graça, na presunçosa ilusão de sermos nós o dono dos tempos e modos da nossa conversão a Ele».
 

Sim, precisamos de reconhecer o tamanho da nossa existência, as cinzas que reflectem a nossa caducidade quando distante de Deus, a presunçosa ilusão de sermos nós alguma coisa ou senhor de nós mesmos. Precisamos de sentir de novo a sede que há em nós e que muitas vezes não admitimos; «não é fácil reconhecer que se tem sede. Porque a sede é uma dor que se descobre pouco a pouco dentro de nós, por detrás das nossas habituais narrativas defensivas, assépticas ou idealizadas; é uma dor antiga que sem percebermos bem como encontramos reavivada, e tememos que nos enfraqueça» (Card. José Tolentino Mendonça,  Elogio da sede); todavia, esta sede está lá, ela é a dor da nossa fragilidade, a dor da nossa vulnerabilidade extrema e o desejo de viver em plenitude que não nos larga jamais, porque fomos feitos para patamares mais elevados, a medida de Deus, a medida do amor. Só Deus pode saciar a sede de infinito que Ele depositou dentro de nós, só Ele pode calar o grito da dor que dói; que a nossa sede nos ensine, nos empurre e nos ilumine a fonte donde jorra permanentemente a Vida: Cristo - nossa Páscoa.
 

Quem tem sede que se aproxime…
 
Os últimos versículos da Bíblia nos convidam a aproximar da fonte e a beber da vida: «O que tem sede que se aproxime; e o que deseja beba gratuitamente da água da vida (Ap 22, 17). 

Quando no deserto o povo de Deus sentiu tremenda sede, no seu sofrimento, gritaram por Moisés e Deus (o Pai misericordioso) abriu para eles o Rochedo donde jorrou água que dá a vida. Assim, a nós peregrinos nesta terra, também da promessa, o Senhor deseja dessedentar. A Sua Palavra, da qual somos chamados a aproximar neste tempo santo, é fonte de vida eterna. Queiramos aproximar, descer e banharmos nas águas vivas onde fomos baptizados – o Mistério da Morte e da Ressurreição; aí encontraremos luz, força e salvação porque Deus continua a amar-nos como filhos Seus. 

Aproximemo-nos confiantes, o que significa deixar para trás aquilo que nos mantém prisioneiros e longe de Deus, o nosso pecado, a nossa teimosia e petulância de querer ser alguém sem Ele. Quando simbolicamente se nos convida a ir ao deserto nesta caminhada, é porque o deserto é o melhor lugar que há para darmos conta de quem somos e onde estamos. No deserto nos sentimos pequenos, mas também nele podemos desfazer do supérfluo para nos agarrarmos ao essencial. Parece-me que nunca tocamos tanto o vazio e a superficialidade como hoje; estamos tão cheios de nós e cheios do efémero e passageiro que o bloqueio e o desnorte são inevitáveis. Queridos jovens, neste ano particularmente dedicado a vós, deixai estas palavras calar mais fundo dentro dos vossos corações e propósitos!
 

Ainda é tempo de inverter a marcha, o Senhor, sedento de nós, nos espera, quer viver a Páscoa da libertação connosco, quer sentar-se amorosamente connosco na Ceia do nosso tempo. Aproveitemos a oportunidade! Embalemos com a Igreja nesta Quaresma, com tudo aquilo que Ela, Mãe e mestra nos propõe como remédio: a Oração, a Esmola e o Jejum. Inventemos e vivamos alegres e generosos a dinâmica do amor e da caridade. Encontramos Cristo cada vez que nos aproximamos dos irmãos, sobretudo o mais pobre, necessitado ou descartado da sociedade. 

O fruto da nossa Renúncia Quaresmal deste ano, será para apoiar a Fazenda da Esperança - que trabalha na recuperação de pessoas que experimentaram toda a espécie de dependência (álcool, droga, etc.); Em Cabo Verde temos uma Fazenda da Esperança em Santiago e é nossa esperança abrir uma outra, num futuro próximo, em Santo Antão. Estou certo que, como de costume, saberemos mostrar a nossa solidariedade e solicitude fraterna, através do gesto da Renúncia Quaresmal que será organizada nas paróquias. 

Votos de uma boa caminhada para a Páscoa, o horizonte que vislumbramos desde já e que nos apoiemos uns aos outros enquanto caminhamos, pela oração e pelo testemunho. 

Mindelo, 1 de Março de 2020 – I Domingo da Quaresma     

† Ildo Fortes, Bispo de Mindelo

Fonte: Diocese de Mindelo

 



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