HOMILIA DO PADRE PAULO VAZ NA VIGÍLIA PASCAL

2019-04-21       Actualidade       Igreja  

  

Caríssimos irmãos, diz o Salmo 118, 25: «Este é o dia que o Senhor fez» e continua o salmo 126,3: «Por isso, estamos exultantes de Alegria». A Pascoa é o dia de alegria e contentamento por excelência. Deus faz com que nós sintamos felizes, porque a nossa felicidade é Cristo Ressuscitado. Nesta noite, caros irmãos, os nossos olhos contemplam o Alfa e o Ómega, Princípio e o Fim da nossa salvação, o homem-Ressuscitado e amor sem medida oferecida à toda humanidade. Esta é a noite em que Deus nos convida a esquadrinhar com olhos do coração às Escrituras, desde a Criação até à Pascoa, desde a Páscoa até à Criação, para assim compreender que em Jesus, o Filho de Deus, «tudo foi feito e criado» (Col1,16) e «sem Ele nada foi feito» (Jo 1,3).

Nesta noite, caríssimos irmãos, do Livro de Génesis e Êxodo, vemos como Deus se inclina para nós dizendo, definitivamente, o seu «Sim», o Sim de Deus à humanidade. Ele nunca nos disse não! Este «Sim» de Deus a todos nós manifesta-se em Jesus Primogénito de toda a criação, por meio do qual o Pai fez tudo e sem Ele nada foi feito. É assim que Ele nos revela o amor e a obediência a Deus Pai e às suas obras posto que n’Ele tudo é um sim a Deus e nunca um não. Jesus é o novo Adão, o homem obediente e fiel, que nos chama a confiança e à obediência da fé, para sermos realmente livres. Nesta noite de amor obediente e de entrega generosa, Deus revela-nos um mundo novo e uma vida nova como possibilidade de ser e existir livres e vivendo com sentido para uma liberdade plena e definitiva. 
Caríssimos irmãos, nesta noite somos chamados com Jesus, o novo Moisés, a deixar-nos libertar do fardo que nos oprime e escraviza, para entrarmos na estrada da liberdade. O Senhor nos quer guiar do Egipto opressor à terra de promessa que é Cristo Ressuscitado. É n’Ele, e com Ele, que devemos fazer caminho de volta à casa Paterna, deixando-nos libertar para a liberdade. É na travessia do Mar Vermelho que Cristo regenerou todo Israel. Hoje nesta noite Cristo nos regenera a todos através dos sacramentos, fazendo-nos atravessar a pé enxuto o pecado que nos oprime, purificando-nos no banho de regeneração espiritual, renovando a cada um de nós para a vida e plenitude. É pelo baptismo que Deus nos concede a graça santificante e a vida nova como participação em Cristo Ressuscitado e a filiação divina como realidade. Somos realmente filhos de Deus com-ressuscitados e com-glorificados Jesus o «Primogénito de entre os mortos».  Nesta noite, caríssimos irmãos, elevemos o nosso coração em festa e cantemos um cântico novo a Deus nosso Pai que em Cristo Ressuscitado nos concede a alegria inefável da Ressurreição. Portanto, «minha força e o meu poder é o Senhor, a Ele devo a minha liberdade». 
Com os Profetas Isaías e Ezequiel, recordamos o exílio e a admirável protecção de Deus na vida do seu Povo. Hoje, e como outrora, caríssimos irmãos, somos convidados a sentir sempre presente nas nossas vidas a presença bondosa e salvífica de Deus nas nossas vidas porque Ele nunca nos abandona e nem nos deixa sós. O povo de Deus se encontrava no exílio, mas hoje podemos perguntar: Qual é o nosso exilio? Onde é que estamos? Como é que nós nos encontramos? O povo de Israel se encontrava longe da sua terra, raízes e cultura… e nós onde é que estamos? Hoje somos convidados a sair do nosso exílio e deixar-nos libertar de tudo aquilo que nos escraviza, porque o verdadeiro exílio, caríssimos irmãos, consiste em tornar-nos indiferentes a Deus e insensíveis à sua causa. O maior exílio do homem e da mulher do nosso tempo é viver sem causas, sem sonhos, sem esperanças, sem horizontes de vida e gastando todo o seu dinheiro com aquilo que não alimenta e esquecendo o insistente convite de Deus: «vinde comprai sem dinheiro vinho e leite (…) ouvi-me, vinde comei o que é bom (Is 55,1-3)». Deixemo-nos encontrar e iluminar nesta noite por Cristo Ressuscitado, nós que tantas vezes andamos perdidos longe de Deus. 
Nesta noite, o Senhor quer nos encontrar para nos redimir, libertar, reconstruir e alegrar-nos com uma identidade nova, renovando-nos pelo baptismo, ungindo-nos e revestindo-nos com a túnica da libertação e da filiação divina, concedendo-nos um coração novo e um espírito novo. Neste sentido, é pelo Baptismo é que participamos plenamente de Cristo ressuscitado e inseridos totalmente na sua morte e Ressurreição. No baptismo, todos os baptizados participam realmente na morte e na Ressurreição de Jesus. Todos, pelo Baptismo, somos sepultados com Cristo na sua morte para também com Ele ressurgirmos para uma vida nova e uma humanidade nova à estatura de Cristo, o homem novo.  
Nesta noite, Lucas nos apresenta Aquele Jesus Cristo, Crucificado, Morto e Sepultado como o Ressuscitado. Aquele que eleva a humana vida e a Escritura inteira à plenitude. Ele é quem nos pede a que façamos memória, para lembrarmos do que Ele nos tinha dito: «o Filho do homem deve ser entregue nas mãos dos pecadores, ser crucificado e ao terceiro dia ressuscitar». Deixemos que o Senhor Ressuscitado transpõe a Pedra da nossa morte e nos eleva à vida nova de ressuscitados, abrindo o sepulcro das nossas prisões. Caríssimos, a pedra da morte é sempre intransponível às nossas forças. Deixemos que Deus a retire das nossas vidas e voltemo-nos, desde Cristo ressuscitado, para os irmãos anunciando com alegria a presença de Cristo ressuscitado nas nossas vidas. As mulheres foram ao sepulcro para cuidar do corpo do Senhor, mas encontram o sepulcro vazio, ficam desorientadas, «sem caminho (aporéô)», completamente á deriva. Mas, o Senhor nunca abandona o ser humano na sua angústia e desespero. Nos manda sempre consolação e sustento. 
É aqui que aparecem para elas os dois Anjos vestidos de Branco. Aqueles que testemunham a ressurreição. Com isto, Deus nos anuncia que a morte foi derribada e todo o ser humano foi libertado na Ressurreição de Cristo. A habitação da morte foi aberta para sempre. Os anjos brilhavam a Luz celeste do ressuscitado. O contacto com Deus e a experiência da sua presença sempre nos enche de temor e medo como experiência interior do encontro, mas também de reverência e reconhecimento. Quando o homem e a mulher se deixarem encontrar, libertar-se e ressuscitar-se por Deus conseguem enxergar a presença do Ressuscitado a não o procurar entre os mortos, porque Ele está vivo. Às vezes, não captamos a Cristo e nem enxergamos a sua presença porque O procuramos em lugar errado: «Porque me procuráveis? Não sabíeis que devia que estar nas coisas do meu Pai» (Lc 2,49). 
As mulheres procuram Cristo, Ele se apresenta como o Vivente, e elas inclinam o rosto para o chão. Porque a presença d’Ele revela-nos a realidade celeste. Ele ressuscitou para uma nova condição de vida permanente, divina e está sempre vivo e presente no seu povo. Jesus, hoje, caríssimos irmãos, nos envia de novo à Galileia, às origens da nossa chamada e missão para recuperarmos de novo a nossa identidade, a alegria e à Verdade da sua Palavra. «Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos». Jesus nos envia a Galileia para recuperarmos a memória da nossa vocação e missão, a memória do nosso renascer para vida nova no baptismo, a memória da nossa fidelidade e inclusão ao seu corpo, guiados pelo seu Espírito. Jesus quer que todos nós nos transformemos em comunidade de «discípulos e missionários».  
Aquelas mulheres (Maria Magdalena, Joana e Maria de Tiago) lembraram das Palavras de Jesus e se transformam em discípulas e anunciadoras de Cristo Ressuscitado a todos os discípulos de Jesus. Mas, os Apóstolos não deram crédito às palavras das mulheres. Caríssimos, a incredulidade nos afasta do caminho da fé, do amor e do gozo da presença amiga do Ressuscitado. Só a confiança nos leva à fé, nos faz compreender a Escritura e nos ajuda a enxergar o Ressuscitado. A Ressurreição não é um invento do homem, mas sim uma acção interventiva de Deus na nossa história, respondendo à sede e ao desejo profundo de vida por parte do homem e da humanidade. Pedro, depois de receber o anúncio, levantou e correu depressa ao sepulcro. É preciso levantar-se e colocar-se de pé, em atitude de fé, como convém que seja o discípulo, expressando assim uma atitude de interesse e empenhamento. Caríssimos, deixemo-nos Ressuscitar nesta noite, pelo fulgor da Luz de Cristo ressuscitado e entrai no domínio inefável do seu amor. 



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