HERNANY DIAS: «POR QUE CASAR PELA IGREJA?»

2019-04-07       Actualidade       Opinião  

  

Para a cultura hodierna, a realidade seria aquela que nós determinamos, ou o que o legislador, na senda das correntes culturais ou, ainda pior, por pressão de grupos de interesse, determina cada momento. Não existiria a verdade, mas simplesmente as soluções preconcebidas, ou a cristalização em normas legais daquilo que a maioria pensa ou o grupo que tenha mais elementos para impor as suas opiniões. A verdade, por sua vez, torna incómoda, politicamente errada, ou até um atentado contra a liberdade das pessoas. Vivemos numa sociedade no qual existe uma espécie de “alergia a verdade”. Esta se manifesta em modo dramático na compreensão do matrimónio, que seria aquilo que cada sociedade estabelece, conduzindo a um esvaziamento do matrimónio, termo que tornou um “flatus vocis” ou, como afirma Martínez de Aguirre, o matrimónio invertebrado. Devido a este fenómeno, sofreu uma forte celeridade nos últimos decénios, atingimos a negação de praticamente todos os elementos que definem o matrimónio em muitas legislações, substituindo a verdade do matrimónio pelo “modelo legal”. Na sua obra - A identidade do matrimónio, J. Hervada adverte que devemos ir à raiz porque o matrimónio não é, em nenhum caso, uma categoria legal. Neste sentido, o matrimónio não é um “contrato civil”, terminologia que no fundo está dizendo que o matrimónio é uma categoria legal, que os contraentes assumam. Tal vínculo não é o matrimónio, porque o matrimónio não é isso, mas, em todo o caso, um “contrato natural”, uma instituição natural. Limitar-se a assumir uma categoria legal, seria limitar-se a legalizar a união, não é propriamente contrair o matrimónio.

O matrimónio não é uma construção da cultura. Contrariamente a que hoje os legisladores querem impor-nos, isto é, o matrimónio como qualquer coisa que vem implantada por leis e por culturas, sem que exista uma noção “real” do matrimónio. Devemos procurar vias para demonstrar que o matrimónio é uma realidade natural, que é vivida da grande maioria dos casais em todas as culturas. Esta visão natural deve superar o reducionismo biológico e a aparente contraposição entre natureza e liberdade. Existe uma verdade que possamos conhecer e possamos viver. O matrimónio é o único modo humano e humanizante de viver na plenitude o dom da própria condição masculina e feminina. Qualquer outro modo é desumanizante e destrutivo. Em palavras simples, o matrimónio não é um dos modos possíveis para viver a doação sexual, mas é o único modo digno da pessoa humana doar a própria condição masculina e feminina. O matrimónio não é uma “instituição” criada pela Igreja ou pelo Estado, mas é o próprio dom e a própria união entre o homem e a mulher enquanto tais. 
A dificuldade de compreender o matrimónio está associada ao esvaziamento da compreensão do amor. A palavra sofreu amor várias tranformações, e muitas vezes é entendido como paixão ou sentimentos. Deve-se descobrir o verdadeiro amor, que não é egoísta, que não pensa somente em si, mas que quer o bem da pessoa amada, o verdadeiro bem, que não é passageiro. No Magistério, temos as considerações feitas por Bento XVI nas primeiras páginas de Deus Caritas est, sobre a relação entre o eros (que engloba a componente sexual do amor) e o agapé (amor divino), argumento que retomou Papa Francisco na Amoris Laetitia. É necessário superar a visão da relação homem-mulher como simples atracção ou como afectos e sentimentos, porque sobre esta base não se pode construir nada duradouro. Aqui adentra a compreensão do matrimónio e porquê vale a pena esposar-se, isto é doar-se e acolher enquanto homem e mulher, para construir a “una caro” conjugal (a união na natureza, que supera, sana e purifica as concretizações das diversas culturas, como recordava São João Paulo II na encíclica Veritatis Splendor). O matrimónio é o caminho digno para integrar, no amor entre o homem e a mulher, o eros e o agapé. 
Um outro aspecto é a superação da visão legalista, muito difundida, segundo a qual o matrimónio seria uma adesão a um modelo cultural ou jurídico. Parafraseando Viladrich, “a legalização dos sentimentos amorosos”. Nesta perspectiva ser casado seria celebrar uma cerimónia ou o cumprimento de determinados requisitos formais. Para superar esta visão é fundamental a redescoberta da dimensão vocacional do matrimónio, que entre os baptizados significa sacramentalmente a união entre Cristo e a sua Igreja (cf. Amoris Laetitia, 72; Familiaris consortio, 94). E como chamamento, deve ser fruto de um discernimento vocacional e de uma adequada preparação. 
A situação actual, que Bento XVI chamou de “emergência educativa”, é uma chamada de atenção à responsabilidade pessoal e institucional, para se unirem esforços para provocar a mudança e mostrar a beleza do amor conjugal, do matrimónio e da família, num mundo marcado pelo imediatismo, pelo influxo das novas tecnologias, pelo medo do compromisso, pelo pessimismo antropológico e pelo hedonismo. 



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