HERNANY DIAS: «O NÃO-CRENTE DA SOCIEDADE ACTUAL»

2019-06-20       Actualidade       Opinião  

  

O problema religioso, certamente, é arraigado nos séculos da modernidade e exprime-se no padecimento, com traços dramáticos, do homem moderno que não consegue encontrar um sentido duradoiro da própria existência. Tal padecimento estende-se a todas as dimensões humanas: das mais variadas relações afectivas às dinâmicas estreitamente familiares. 

Parece que o estilo de vida hodierno, cada vez concentrado no individualismo, consolidou-se no tempo como uma nova forma de crença: um ateísmo prático que baseia-se na adesão formal aos rituais religiosos que aparecem privados de relevância para a existência quotidiana. É próprio o ateísmo prático o terreno fértil sobre o qual nascem várias formas de ateísmo teórico,  ou seja, a negação clara e consciente da existência de Deus. 
A modernidade teceu um vínculo particular entre ateísmo e humanismo, que suscita um humanismo exclusivo. Existem paradoxos na modernidade: por um lado, o homem é ferido no seu narcisismo porque com Galileu Galilei descobriu que não está no centro do universo, de outro lado, depois do humanismo, o homem, estará no centro das investigações filosóficos, será objecto das ciências do espírito. 
O ateísmo moderno não se limita a ser destrutivo, pisando em toda a fundação da metafísica, mas apresenta-se como universal e construtivo, ou ao menos é o seu pretexto. Este não pertence a uma pequena elite, mas tornou-se um fenómeno de massa e propõe  a construção do homem não alienado e a sua vida social. 
Bastaria observar o contexto sociocultural para compreender que este é incrivelmente diversificado, que não se enquadra em nenhum procedimento classificatório. Se de um lado surge os integralismos religiosos com todas as suas consequências, de outro aparece todas as categorias de sujeitos que exprimem explicitamente, através de críticas detalhadas ou implicitamente, através das variadas formas de comportamento, uma rejeição substancial da crença religiosa.
O não-crente da sociedade actual pertence a uma categoria com carácter inclusivo: acolhe, então, o ateu, seja prático que teórico, o laicista – que rejeita todas as formas de ingerência religiosa nos âmbitos da vida do indivíduo – e o agnóstico com a sua atitude possibilístico, a existência ou inexistência do divino.
O maior problema que deve afrontar quem quer testemunhar a sua fé (primeiramente a Igreja) é talvez esta: uma atitude de desconfiança não tanto de Deus, mas das funções das instituições religiosas e dos seus dogmas, os quais, muitas vezes, tornam-se incompreendidas devido ao uso de uma linguagem e de categorias diferentes da realidade moderna: «Estamos fïrmemente convencidos que a teoria, sobre a qual se funda a negação de Deus, está fundamentalmente errada, não corresponde às exigências últimas e inderrogáveis do pensamento, subtrai à ordem racional do mundo as suas bases autênticas e fecundas, introduz na vida humana não uma fórmula de solução mas um dogma cego, que a degrada e desola, e arruina pela raiz todos os sistemas sociais que nele pretendem fundar-se. Não é libertação, mas drama que tenta apagar a luz do Deus vivo. Por isso resistiremos nós, com todas as forças, a esta negação avassaladora, pelo amor supremo da verdade, pelo compromisso sacrossanto de confessarmos Cristo e o seu Evangelho, com a maior fidelidade pelo amor apaixonado, irrenunciável, à sorte da humanidade, e na esperança invencível de o homem moderno vir ainda a descobrir, na mensagem religiosa do catolicismo, que é chamado a uma civilização imortal mas sempre em progresso, a caminho da perfeição natural e sobrenatural do homem. A graça de Deus torna-o capaz de possuir pacífica e honestamente os bens temporais e abre-o à esperança dos bens eternos» (cf. n.55 da Carta Enciclíca Ecclesiam Suam de São Paulo VI, 1964). 
A fé, não legitimada pela estrutura do mundo e pelas convicções sociais, deve refundar-se sobre a liberdade autêntica que não paralisa, mas tende para o amor. 
Qual é o papel do cristianismo? Primeiramente, colocar-se como exemplo educativo. A fé cristã vive as provocações  da modernidade que a obriga a renovar-se, mas contemporaneamente, se insurge contra as provocações do presente, porque coloca algumas restrições. Esta deve empenhar-se na defesa da sua identidade que é a procura da verdade (revelada em Cristo), num processo de discernimento constante fundado na auscultação. Se a fé cristã é uma escolha alimentada pelo desejo de uma relação com Deus, a reciprocidade e o diálogo são dois instrumentos de que ela deve servir-se. 



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