HERNANY DIAS: «A IDEOLOGIA DE GÉNERO E A SEXUALIDADE LÍQUIDA»

2019-03-11       Actualidade       Opinião  

  

Na conferência de imprensa durante a viajem de regresso das Filipinas, Papa Francisco definiu a ideologia de género como “colonialismo ideológico” e uma verdadeira “destabilização antropológica”. Para depreender a teoria, sem adentrar na complexidade da ideologia, é necessário entrever dois conceitos: a identidade sexual e a identidade de género. Não se trata somente de um requinte linguístico. 

A identidade sexual é reconhecer-se pertencente ao sexo biológico masculino ou feminino, e esta pertença é constituída de caracterizantes sexuais e biológicas inscritas no DNA de cada pessoa no período da fecundação. A identidade sexual é, então, um componente imprescindível para cada homem e mulher e a expressão do seu ser em relação que supera todos os condicionamentos sexuais. 
A identidade de género, traduz o vocábulo “gender” cunhado pelo psicólogo americano John Money e absorvido pelo filósofo estruturalista francês Claude Lévi-struss, vai mais além sustentando a “in-diferença sexual” e qualificando o ser humano como decorrência dos protótipos sociais e culturais que o compõem. A identidade de género, então, tem em consideração as particularidades de identificação na função masculina ou feminina que excedem a ordem natural e as construções sociais. Muitas vezes, sexo biológico e género compactibilizam-se, em outros casos opõem-se. Desconsidera o homem e a mulher como seres criados e alega a possibilidade de mudar: de uma mulher a um homem e vice-versa, a nível de comportamento, de função e inclusive físico. Para além destes dois modos de apresentar-se na sociedade existem também as vias intermédias (intersexualidades). Resumindo, o sexo biológico é um traço trivial do corpo que não define a identidade que o sujeito arroga. Por isso, é preciso cautela para não confundir a semelhança e a paridade com igualdade. 
A teoria de género surgiu oficialmente nos anos 70 do século XX nos Estados Unidos ao interno da investigação sociológica e antropológica e é bem resumida em uma frase da famosa escritora e filósofa Simone De Beauvoir: “Mulher não se nasce, torna-se”. Outra mentora relevante na disseminação desta teoria foi a filósofa post-struturalista estadunidense Judith Butler e o movimento feminista. É uma perspectiva diferente daquela defendida pela Igreja Católica e reafirmada por São João Paulo II na Carta Apostólica “Mulieris Dignitatem” (complementaridade na diversidade). O homem e a mulher têm igual dignidade e características comuns, mas também se distinguem por algumas diversidades que, apreciadas e valorizadas, se enriquecem reciprocamente. Reconhecer e acolher a própria identidade sexual, é imprescindível para o equilíbrio pessoal, de consequência, da família. A teoria de género pleiteia o direito de aceitar a identificação entre o sexo biológico e o género ou modificá-lo. E, o corpo, não pode ser obstáculo ou um limite. Assevera que não foi Deus que os criou macho e fêmea (cf. Gn 1,27), mas é a sociedade a determiná-los e cabe à nós decidir. A ideologia de género identifica na família fundada no matrimónio entre um homem e uma mulher e na maternidade biológica, obstáculos primários à construção de “novos estilos de vida”. Para além de ser favorável ao aborto e a contracepção entende, como recordou Bento XVI, redesenhar a eterna visão complementar homem-mulher que origina a vida e encontra na Bíblia o seu fundamento. Destruir a realidade sexual, demolir as funções específicas sexuais dos dois sexos, “torna tudo família”. Já não se fala de família mas famílias. 
A ciência também refuta este desvario. Esclarecedor é o parecer do professor Alberto Olivero, um prestigiado psicobiólogo italiano, no seu livro intitulado “Gender & neuroscienza: la differenza esiste”. Ressalta Olivero, a heterogeneidade da natureza biológica faz parte do dimorfismo sexual. As peculiaridades dos dois seres subordinam-se aos factores genéticos e cromossómicos e não concerne somente os órgãos genitais mas também a estrutura do corpo e do cérebro. No sistema nervoso existe um dimorfismo (diversidade entre sexos) que tem a ver com as estruturas cerebrais. A diversidade que existe entre os dois sexos inclui também a constituição cerebral e as diferenças comportamentais e da personalidade. Defender a paridade negando as diferenças biológicas, como sustentam os teóricos desta ideologia, é um curto-circuito que deve-se evitar. Educar à paridade não implica necessariamente negar as diferenças. 
Nesta óptica, fazer coincidir os direitos humanos com a identidade de género é uma falácia, porque somente o reconhecimento da própria identidade sexual, feminina ou masculina, assegura o total equilíbrio à pessoa. A teoria de género não é somente um modo teórico mas uma orientação do pensamento politicamente implantado para obter modificações ou para criar normativas nacionais ou internacionais fundadas em pressupostos diferentes daqueles hereditados pela tradição, sem referimento ao direito natural. É a sociedade líquida que se transforma em afectividade líquida. 



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