DOM ILDO FORTES: II MENSAGEM DO PASTOR AOS SEUS FIÉIS EM TEMPOS DIFÍCEIS

2020-04-05       Actualidade       Igreja  

  

Entramos na Semana Santa, a Semana Maior da história da Humanidade, e sem poder manifestar publicamente a nossa fé devido ao Covid-19. Nestes tempos difíceis, através de muitos meios, muitas mensagens chegam até nós. Neste sentido, o Bispo da Diocese de Mindelo, Dom Ildo Fortes, se faz presente, através desta mensagem, em todos os lares e famílias, para animar a nossa esperança e nos orientar na vivência da Semana Santa.

Meus estimados irmãos e amigos,
Caros diocesanos de Mindelo
Entramos no mês de abril, o mês da nossa maior festa - A Páscoa - Aquele acontecimento que é o centro e o ápice de toda a vida cristã.
Um abril diferente… parece mentira, mas é verdade; uma Páscoa como nunca vivemos; certamente já tivestes acesso ao Comunicado de nós, os bispos de Cabo Verde, em como como na Semana Santa, só os sacerdotes estarão nas nossas Igrejas para celebrar ou concelebrar. Tem de ser assim, por amor à vida, por amor uns aos outros, por sentido de responsabilidade!
Esta manhã rezávamos: Eis o tempo favorável que nos deu a divindade, para que tenham remédio as culpas da humanidade;
Este tempo, estimados irmãos, é para nos deixarmos renovar pela graça de Deus que está tão perto de nós; Olhai que Deus nos traz hoje um novo dia, por isso para Ele, hoje e sempre, o nosso cântico novo. É tempo de reciclagem, de vez em quando precisamos de fazer uma reciclagem dos aparelhos, do Computador, fazer um reset, etc; Pois aí temos esta oportunidade, um tempo para nascer de novo. Ele nos é dado como uma oportunidade favorável, é de graça. Este tempo é uma dádiva, pode ser uma bênção, as pessoas são um presente, a nossa inteligência e criatividade é uma riqueza a descobrir e a desenvolver.
Temos tempo para a família como nunca tivemos, tempo para as pessoas, tempo para falar e para escutar, também tempo para estar calado, fazer silêncio e deixar falar a voz de Deus, no coração; Temos tempo para amar, se assim quisermos, aliás todo o tempo só faz sentido e é merecido, se for tempo de amor, tempo de serviço aos irmãos e solidariedade.
Tempo para viajar! Qual viagem? Muitos de nós viajamos demais, andamos de mais e a grande velocidade… corremos o risco de passar a maior parte da nossa existência nas periferias de nós mesmo, longe de tudo e de todos, a nossa alma habita em arrabaldes turbulentos… por isso, é tempo de viajar um pouco para dentro de nós, vamos ao encontro de nós mesmos no seu melhor e na sua fragilidade, este nosso eu que muitas vezes se perdeu em alguma tempestade, vamos ao encontro do essencial. O santuário e o templo mais sagrado, é o nosso interior, que tantas vezes é profanado, no pensamento, nos sentimentos que desembocam nas atitudes que bem conhecemos. O Senhor chama-nos a aproveitar este tempo de prova como um tempo de decisão. Como diz o Papa Francisco; Não é o tempo do juízo de Deus, mas do nosso juízo: o tempo de decidir o que conta e o que passa, de separar o que é necessário daquilo que não o é. É o tempo de reajustar a rota da vida rumo ao Senhor, e aos outros. «Convertei-Vos a Mim de todo o vosso coração», ouvíamos no início desta Quaresma.
Daqui partimos para olhar o mundo com outros olhos… os olhos de Deus, olhos do amor, certamente. Pois, só se vê bem com o coração (dizia Saint Exupery);
A nossa atenção e a nossa admiração e respeito, não pode deixar de ir para aqueles que se esmeram no cuidado dos outros (nos hospitais, nos lares, nas casas, nas instituições várias, nas ruas); vai para os sacerdotes (e suas equipas pastorais) que sentem a dor de não celebrar esta Páscoa com o seu povo, mas aí inventam e são criativos para desafiar o rebanho a não se perder nem a perder a esperança, através da oração sem cessar e outros formas de estar presente.
O nosso pensamento volta-se particularmente para aqueles que nesta hora mais sofrem: os doentes, os pobres, os que têm um trabalho precário, as famílias sem condições. Muitos já se encontravam na aflição, agora vêm as coisas mais difíceis; A nossa Caritas Nacional, em concertação com as Caritas diocesanas, já constitui um gabinete de crise e está a implementar um plano de emergência, em sintonia com outras instituições para atender aos mais pobres de entre os pobres; 
Convém lembrar que as vossas paróquias e os seus serviços, que existem para vós, durante semanas não vão poder contar com a vossa habitual colecta e contribuição para viver; possam os paroquianos ter isso presente, porque os vossos sacerdotes, serviços e obras precisarão do vosso apoio.
Por fim, como vamos viver a Páscoa, sem a celebração do Domingo de Ramos e sem o habitual Tríduo pascal? Não ficamos sem Páscoa! Nas Igrejas, eu e os vossos párocos estaremos celebrando o Mistério Pascal por todos; Não haverá celebração com o povo, mas estaremos unidos e em profunda comunhão espiritual. Algumas celebrações e actos de piedade próprios deste tempo serão transferidos para outra data (Missa Crismal, as devoções da paixão do Senhor – que passarão para 14 e 15 de Setembro, altura que exaltamos a santa Cruz do Senhor.
Assim a nossa Páscoa vai ser vivida em casa, em família, em Igreja Doméstica. Procurem estar a par dos horários das celebrações na vossa comunidade e unir-vos pela oração à mesma hora e, acompanhando pela Rádio, TV ou redes sociais se for o caso; É oportuno em casa ter um espaço apropriado para o efeito; Tem estado a circular alguns subsídios que poderão ajudar a viver estes dias em família (no nosso site podeis encontrar alguns); Ponhamos ramos nas portas das casas, no próximo domingo, tenhamos uma Cruz na nossa porta a lembrar a Páscoa - a Passagem do Senhor (no dia de Páscoa ornamentamos com flores, se possível, essa cruz para lembrar a alegria da Ressurreição); O Deus de Abraão e de Jesus Cristo, o nosso Deus é peregrino, está onde estiver o Seu povo. 
Como dizia o Papa na oração feita na Praça de S. Pedro, no passado dia 27: 
O Senhor interpela-nos e, no meio da nossa tempestade, convida-nos a despertar e ativar a solidariedade e a esperança, capazes de dar solidez, apoio e significado a estas horas em que tudo parece naufragar. O Senhor desperta, para acordar e reanimar a nossa fé pascal. Temos uma âncora: na sua cruz, fomos salvos. Temos um leme: na sua cruz, fomos resgatados. Temos uma esperança: na sua cruz, fomos curados e abraçados, para que nada e ninguém nos separe do seu amor redentor. 
Boa caminhada para a Páscoa do Senhor. Maria, Mãe do Senhor e Mãe da Igreja, Aquela que foi até ao fim e permaneceu confiante junto à Cruz do Senhor, seja nosso refúgio e nos inspire a esperança na vida nova que despontou com a Ressurreição do Senhor! 

+ Ildo Fortes,
Bispo de Mindelo



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