Dom Ildo Fortes escreve Mensagem para a Quaresma 2017

2017-03-04       Actualidade       Igreja  

  

O Bispo da Diocese de Mindelo, Dom Ildo Fortes, escreveu, como é hábito, a sua Mensagem para a Quaresma, o Tempo Litúrgico que estamos a viver desde o dia 01 de Março, Quarta-feira de Cinzas. Este ano a proposta da Renúncia Quaresmal, segundo Dom Ildo Fortes, «é para reverter em prol das crianças que vivem em grande situação de risco; situações essas que infelizmente tendem a aumentar na nossa sociedade (meninos de rua, crianças que experimentam tremendas privações, a Associação Irmãos Unidos, etc.)».
Em baixo encontra-se na íntegra a Mensagem de Dom Ildo Fortes para a Quaresma de 2017:

 MENSAGEM QUARESMAL 2017
Não poderá haver justiça nem paz social enquanto Lázaro 
jazer à porta da nossa casa (cf. Lc 16, 19-21)

Este ano ao iniciarmos o tempo santo da Quaresma temos certamente ainda bem viva na memória a vivência do Ano Jubilar da Misericórdia: uma boa oportunidade para bebermos intensamente do coração misericordioso de Deus Pai. O tempo que agora celebramos e vivemos é de novo propenso para voltar a saborear de maneira profunda esta mesma misericórdia que é uma fonte perene de alegria e paz.

Para que toda a experiência vivida durante esse ano de graça não caísse no esquecimento, o Papa Francisco presenteou-nos no término do ano santo com uma simpática e interpelante Carta Apostólica, intitulada Misericordia et Misera. Esta poderá ser uma boa ajuda para vivermos esta Quaresma de 2017. O Santo Padre deseja que esse tempo rico em misericórdia, possa continuar a ser celebrada e vivida nas nossas comunidades. Com efeito, a misericórdia não se pode reduzir a um parêntese na vida da Igreja, mas constitui a sua própria existência, que torna visível e palpável a verdade profunda do Evangelho (cf. MM1).
É dessa mesma carta, a forte afirmação com a qual abro esta mensagem quaresmal: Não poderá haver justiça nem paz social enquanto Lázaro jazer à porta da nossa casa (cf. Lc 16, 19-21). Tais palavras, tendo em conta o lema pastoral da Diocese (Construir a Justiça para Acolher a Paz), ressoam de modo especial nos nossos ouvidos. Nesta caminhada pessoal e comunitária para a Páscoa, o desafio que se nos apresenta pela frente é precisamente este de caminhar em direcção a Deus, mas levando o outro, o pobre e o injustiçado connosco. Aconselho também vivamente a que se leia e se medite na Mensagem do Papa Francisco para esta Quaresma - A Palavra é um dom. O outro é um dom. Curiosamente, a imagem que o Papa toma para explanar a sua Mensagem é também a do pobre Lázaro. Tal como Lázaro, o outro é um dom, uma riqueza inestimável, um ser querido, amado, recordado por Deus; O pobre é um apelo à nossa conversão e mudança de vida. Sem a atenção e o amor aos irmãos, a justiça e a paz não brotarão na terra.

Como em todos os tempos litúrgicos, a Palavra ocupa um lugar importante no nosso itinerário espiritual, mas a Quaresma, mais que todos os outros tempos da liturgia, é um tempo em que a escuta da Palavra é acompanhada por obras que manifestam a atitude de conversão. 
Assim, como é habitual durante a Quaresmas, convido-vos a empenhar generosamente na prática da Renúncia Quaresmal. «Ir ao encontro das necessidades do próximo e partilhar com os outros aquilo que, por bondade divina, possuímos. Tal é a finalidade das colectas especiais para os pobres, que são promovidas em muitas partes do mundo durante a Quaresma. Desta forma, a purificação interior é corroborada por um gesto de comunhão eclesial, como acontecia já na Igreja primitiva» (Bento XVI, Mensagem da Quaresma 2008).

O valor da Renúncia Quaresmal do ano passado foi de 360.895$00 (dados que conseguimos apurar até ao momento); ela foi destinada para aquelas povoações que mais danos sofreram com a passagem do furacão Fred em 2015. Este ano, a proposta da Renúncia Quaresmal é para reverter em prol das crianças que vivem em grande situação de risco; situações essas que infelizmente tendem a aumentar na nossa sociedade (meninos de rua, crianças que experimentam tremendas privações, a Associação Irmãos Unidos, etc.). 
Fazendo ainda eco da Carta Pastoral 2016-17: os interesses particulares e económicos prevalecem com frequência sobre o bem comum. Mas «o Evangelho convida-nos sempre a abraçar o risco do encontro com o rosto do outro, com a sua presença física que interpela, com o seu sofrimento e suas reivindicações, com a sua alegria contagiosa permanecendo lado a lado» (EG 88). É perigosa a indiferença e o descuido do nosso próximo porque destrói o relacionamento interior comigo mesmo, com os outros, com Deus e com a terra. Não podemos ficar inertes frente ao relativismo prático dos nossos dias, e aos mais diversos modos de antropocentrismos que alimenta a degradação ambiental e social e reduz a pessoa a um mero objecto (Cf. LS122; 123).
Estou certo que não faltarão gestos ousados e expressivos da nossa justiça e amor para com os pequeninos que ocupam um lugar privilegiado no coração de Deus. Deus recompensa com a alegria aqueles que cuidam dos Seus pobres!
Votos de uma santa Quaresma, caminho de conversão, justiça e paz! 

Mindelo, 1º Domingo da Quaresma, 5 de fevereiro de 2017

† Ildo Fortes, Bispo de Mindelo



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