Carta pastoral na íntegra de Dom Ildo Fortes para o Ano Pastoral 2017/2018

2017-09-29       Actualidade       Igreja  

  

O Bispo da Diocese de Mindelo, Dom Ildo Fortes, escreveu e enviou à todas as paróquias da Diocese de Mindelo, seus párocos, vigários paroquiais, diáconos e demais fiéis, a Carta Pastoral para o Ano Pastoral 2017/18 que se inicia, em toda a Diocese, no dia 01 de Outubro de 2017.


Estimados irmãos e irmãs!
O novo ano pastoral é oportunidade para adentrarmos mais no coração misericordioso de Deus Pai. Levamos três anos de programação pastoral cujo tema central é: A Igreja comunidade de amor: ao serviço da reconciliação, da justiça e da paz.
Cada um de nós é chamado a rever como foi, nestes últimos dois anos, a sua experiência de encontro pessoal com Deus, em Igreja. Continua ainda bem vivo na memória do coração, o recente Jubileu Extraordinário da Misericórdia, e note-se que, quem experimentou o amor misericordioso de Deus, certamente procura comunicar esse amor aos outros. O olhar afectuoso de Deus, fixo em nós, é um desafio a sairmos de nós para prolongar esse amor nos irmãos. Quem não sai de si, para amar e ungir, de certo, ainda não se sente amado. Porque, o amor é como uma fragrância que não pode deixar de exalar seu perfume.
Reconciliados com Cristo, fermentos de um mundo novo: tal expressão, pela qual desejamos orientar o nosso ano, supõe estarmos reconciliados; reconciliados com o mundo à nossa volta, com os outros, connosco mesmo e com Deus. Com Deus primeiramente, porque quem O encontra e permanece n’Ele, torna-se uma fonte de amor benfazejo para quantos o rodeiam. Não se pode amar sem antes se se sentir amado por um amor assim, divino. Toda a espécie de paz e de bem, pelo qual ansiamos, consegue-se no encontro real e profundo com Deus.
O Papa Francisco tem nos interpelado insistentemente para a urgência de sairmos; queremos uma Igreja em saída, discípulos que vão ao encontro de quantos aguardam novas de esperança e de vida. Estamos a falar de missão. No término deste triénio pastoral, irmãos, vos convido a todos, começando por nós pastores e passando por todos os nossos fiéis leigos, a ousarmos sem intermitências, um estilo de vida e de acção pastoral missionária. Por vezes, perdemos demasiado tempo enredados sobre nós mesmos e confinados ao nosso pequeno mundo, esquecendo a urgência da Seara que reclama a presença de trabalhadores apaixonados, generosos e audazes, prontos a gastar a sua vida pela causa do Reino.
Tenhamos presente dois factores importantes: a fidelidade do Espírito do Senhor, que jamais deixará de acompanhar a Igreja de Cristo, em cada etapa e vicissitude, e a leitura dos sinais que encontramos neste tempo. Eles assinalam as oportunidades favoráveis para o anúncio do Evangelho no meio desta massa onde nos encontramos; queiramos ser fermento de um mundo novo. As sombras que pairam sobre a nossa sociedade, tais como: a ausência de valores humanos, o vazio existencial, a hesitação em traçar rumos, a desorientação de caminhos, a insegurança e desconfiança sociais, não devem paralisar os discípulos de Cristo nem convertê-los em meros e estéreis observadores que, quando não passam de lado, detêm-se a forjar críticas e lamentos para consolo do seu ego.
Mais do que sonhar com uma missão projectada lá longe, passemos à acção, porque a noite vai adiantada e o dia está próximo… revistamo-nos das armas da luz, como diz o Apóstolo (Rom 13,12).
Pretende-se, despertar em cada fiel das nossas comunidades, o dinamismo de maior compromisso no mundo onde estamos implantados. Não raras vezes nos comportamos junto dos nossos contemporâneos com quem partilhamos no dia a dia, os mesmos espaços e as mesmas preocupações, com grande indiferença como se a nossa presença não tivesse que se notar, como se muitos aspectos que reclamam uma atitude profética não nos interessassem ou como se estivéssemos anestesiados e apáticos perante a sociedade. Aliás, é de referir que acontece até o contrário: muitos cristãos, em vez de serem guias esclarecidos e candeia que ilumina a noite, são levados por aquilo que pensam os outros, por aquilo que é «fashion» ou não põe em xeque a sua agradável imagem junto dos outros.
Jesus Cristo ordenou aos seus discípulos: «brilhe a vossa luz diante dos homens, de modo que, vendo as vossas boas obras, glorifiquem o vosso Pai, que está no Céu» (Mt 5, 16). Sabemos que os primeiros cristãos, pela forma diferente de amar e estar na vida, gozavam da admiração e simpatia dos pagãos, a ponto de estes exclamarem: «vede como eles se amam» (Tertuliano, Apologia, 39). A exemplaridade da sua vida fazia a diferença e saltava à vista dos outros. É de cristãos assim, que o mundo tem falta. Será que os pagãos continuam a dizer da nossa gente que vai à Igreja: vede como eles se amam? Marcar a diferença, pela positiva, é o nosso papel na sociedade e é servir o Evangelho. Só o amor pode salvar o mundo! Não precisamos de buscar visibilidade nem destaque, mas humildemente, ter a coragem de ser presença de amor. Não vemos o sal na comida, contudo, pequena quantidade dele torna diferente o sabor; não vemos o açúcar do café, mas a sua presença adoça o paladar e faz-se sentir. Assim deveriam ser os cristãos no mundo: o autor da Carta a Diogneto, há mais de dois mil anos, dizia que os cristãos são no mundo aquilo que a alma é no corpo. «Assim como a alma está no corpo, assim os cristãos estão no mundo. A alma está espalhada por todas as partes do corpo; os cristãos, por todas as partes do mundo. A alma habita no corpo, mas não procede do corpo; os cristãos habitam no mundo, mas não pertencem ao mundo. A alma invisível está contida num corpo visível»
Igreja viva, presente, é o maior bem que podemos fazer à sociedade, mesmo quando esta parece prescindir da sua presença e de Deus. Deus nos livre da globalização da indiferença e nos faça passar para a lógica do encontro com os irmãos.
No último Encontro Diocesano dos Agentes de Pastoral decidimos dar especial atenção, em cada ano, a um sector da Igreja. Este ano será a catequese paroquial. Também vamos agarrar o desafio de uma especial atenção à Palavra de Deus: Instituir na Diocese e em cada comunidade o DOMINGO DA PALAVRA (OU DA BÍBLIA), seguindo as indicações do Papa Francisco na Misericordia et Misera (20 Nov 2016). O Domingo da Palavra é uma ocasião única para reunir o povo de Deus em redor da Bíblia, renovando uma das dimensões essenciais da vida cristã: a escuta.
Deus nos acompanhe com a força do Seu Espirito e a Senhora do Céu, que há 100 anos apareceu em Fátima, nos envolva naquela luz que nos anima e desperta no coração o desejo de amor e conversão!

Mindelo, 8 de Setembro de 2017 - Festa da Natividade da Virgem Santa Maria

          † Ildo Fortes
          Bispo de Mindelo


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