CARTA PASTORAL DOS BISPOS DE CABO VERDE EM TEMPO DE COVID-19

2020-06-14       Actualidade       Igreja  

  

Testemunhas da fé, esperança e caridade para a transformação do mundo  - A força da Eucaristia

Os bispos de Cabo Verde, Cardeal Dom Arlindo Furtado (bispo de Santiago) e Dom Ildo Fortes (bispo de Mindelo), de novo dirigem-se aos seus fiéis e a todos os filhos e filhas de Deus nas Ilhas e na Diáspora, desta vez, com uma Carta Pastoral contendo 8 capítulos e 21 números. A Carta surge no contexto do pós-confinamento obrigatório devido à Covid-19 e é datada de 14 de Junho,  Solenidade do Corpo e Sangue de Cristo. O documento faz uma leitura pastoral da nossa vivência nestes últimos e difíceis três meses e, ao mesmo tempo, é uma palavra de estímulo e esperança dos pastores que aproveitam esta oportunidade para lançar o desafio da missão renovada a todos os baptizados, na família, na Igreja e na sociedade, nas circunstâncias do tempo presente.

Dizem os bispos que: 
sob o signo da esperança pascal, escrevem com quatro propósitos:
   1. Recordar-vos que nosso Senhor Jesus Cristo sofreu a Paixão, morreu, ressuscitou e subiu aos Céus e está vivo no meio de nós, e, como sempre, nos envia a evangelizar; 
   2. Exortar-vos a participar de modo cada vez mais pleno na Eucaristia, fonte de vida e missão da Igreja; 
   3. Incentivar-vos a viver este tempo de provação como tempo favorável de graça;
   4. Pedir que em família pratiqueis a Lectio Divina, que é a leitura orante da Palavra de Deus, perseverando na comunhão fraterna, na fração do pão e nas orações.”

Eis a Carta na íntegra:


CARTA PASTORAL DOS BISPOS DE CABO VERDE

Testemunhas da fé, esperança e caridade para a transformação do mundo  - A força da Eucaristia

Caríssimos irmãos:   Presbíteros, Diáconos, Religiosos, Religiosas, Seminaristas, Cristãos Leigos e todos os filhos e filhas de Deus que vivem nestas Ilhas e na nossa diáspora;

Os nossos votos de que o amor do Pai, a paz de Cristo e a força do Espírito Santo estejam com todos vós.
  
I – Animados pelo Espírito Santo antes, durante e depois da pandemia do Coronavírus Covid-19  

1. O mundo inteiro atravessa uma grave crise, devido à pandemia do Coronavírus Covid-19, marcada por uma grande insegurança e muitas incertezas quanto ao futuro imediato e a médio-longo prazo, o que coloca desafios, de vária ordem. De forma global, países, governos, igrejas, organizações civis, todos foram afetados.  
As dioceses, com todas as suas comunidades, ficaram afetadas na sua programação pastoral, e as famílias limitadas na celebração da liturgia e na vivência da fé.  
No nosso país, verifica-se a entrada progressiva numa nova fase de prevenção e combate a esta pandemia. O caminho afigura-se longo e difícil, o que exige a responsabilidade de todos sem exceção.  

2. É nestas circunstâncias que nós, vossos pastores, sob o signo da esperança pascal, vos escrevemos esta carta pastoral com quatro propósitos:
-        Recordar-vos que nosso Senhor Jesus Cristo sofreu a Paixão, morreu, ressuscitou e subiu aos Céus e está vivo no meio de nós,[1] e, como sempre, nos envia a evangelizar[2];
-        Exortar-vos a participar de modo cada vez mais pleno na Eucaristia, fonte de vida e missão da Igreja;
-        Incentivar-vos a viver este tempo de provação como tempo favorável de graça[3];
-        Pedir que em família pratiqueis a Lectio Divina, que é a leitura orante da Palavra de Deus[4], perseverando na comunhão fraterna, na fração do pão e nas orações[5].”  

3. “Assim como Cristo Ressuscitado enviou os seus apóstolos na força do Espírito Santo, também hoje Ele nos envia, com a mesma força para dar sinais concretos e visíveis de esperança”[6]. O mandato é claro: Ide e ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo[7].
 

Na sequência do tempo da Quaresma e das celebrações pascais, vividas este ano com muitas limitações e de forma tão atípica quanto desafiadora, experimentámos a força do Espírito que no Pentecostes foi derramado abundantemente sobre a Igreja. Hoje, mais do que nunca os discípulos precisam deixar ecoar nos corações as palavras do Mestre que prometeu o Espírito Santo Consolador antes de subir para junto do Pai[8]; é também urgente, no meio de tanta turbulência, e à semelhança dos discípulos de Emaús, sentir arder os nossos corações enquanto o Mestre nos fala[9] e nos recorda as promessas que fielmente nos faz. Como os discípulos, depois de ouvir as Escrituras e do encontro com Jesus na fração do Pão, somos chamados a uma nova ‘saída’ missionária[10] para testemunharmos a todos as maravilhas do Senhor.
     

II - A ação do Governo, a Igreja e a resiliência do povo
 

4. Desde os primeiros sinais desta pandemia da Covid-19, os poderes públicos foram proactivos na defesa da saúde e da ordem. Adotaram diversas medidas sanitárias de prevenção à contaminação com o vírus. Com o evoluir da situação, o Presidente da República fez, por duas vezes, uso da prerrogativa constitucional de decretar o Estado de Emergência, que faz restrições ao exercício de alguns direitos, liberdades, e garantias individuais com impacto direto na vida comunitária. Tais restrições atingiram de forma direta as nossas celebrações e atividades que requerem aglomeração de fiéis, o que causou privações e exigiu sacrifícios de todos. Mas, tendo em vista o bem comum, a Igreja tomou medidas para conter a contaminação da Covid -19, antes mesmo de serem anunciadas as decisões do Governo.  

Assistimos, igualmente, à adoção de medidas socioeconómicas destinadas à mitigação do impacto negativo da pandemia na vida das famílias, sobretudo as mais desfavorecidas, e nas atividades empresariais. Registamos com agrado uma profusão de redes de solidariedade pontuais e institucionais, nas ilhas e na nossa diáspora, em prol dos mais necessitados.  

Entretanto, apesar de todo esse louvável esforço, temos ainda milhares de pessoas a viverem numa situação de pobreza, agravada pelos efeitos da pandemia, o que exige dos poderes públicos ainda mais investimento social, e desafia a sociedade civil e a Igreja a desenvolverem mais iniciativas de solidariedade e de promoção humana.

5. Neste tempo de grandes restrições, pudemos confirmar, uma vez mais, a reconhecida resiliência e a capacidade de luta do povo cabo-verdiano, que marcam a nossa forma de ser e estar no mundo. A tenacidade e coragem do povo, a sua fé e esperança impelem-no a lutar contra a adversidade seja de que natureza for. Com efeito, somos uma nação e um povo de matriz cristã, que ao longo da história buscou no fundo de si mesmo a força da fé, e aprendeu com a natureza agreste destas ilhas no meio do Atlântico e com as vicissitudes da vida, a resistir às dificuldades do nosso país. Como nos dizia o poeta, o povo “aprendeu com o vento a bailar na desgraça”[11], e “as cabras nos ensinaram a comer pedras para não perecermos[12].”
 

A Igreja mobilizou os seus recursos espirituais e materiais para responder, à altura e em tempo útil, aos desafios decorrentes da situação da Pandemia e da e suas consequências imediatas: Por um lado, atendeu a pessoas e comunidades a nível da vida espiritual e sacramental e, por outro, levou a sua ajuda material no respeito à dignidade humana dos pobres, fortalecendo assim a sua esperança. De notar que a Igreja socorreu os mais afetados pela pobreza e pela crise económica ligada à pandemia, indo ao encontro daqueles a quem por vezes não chegavam outras ajudas.
 

6. A dada altura, o Governo declarou a situação de contingência[13] que visava conter os riscos de propagação do novo coronavírus. Nós, como pastores, imbuídos do sentido de responsabilidade pelo rebanho do Senhor a nós confiado, emitimos um comunicado conjunto, determinando a suspensão provisória de todas as celebrações e outras atividades que implicassem o ajuntamento significativo de pessoas[14]. Por isso, as atividades religiosas presenciais públicas da Igreja foram grandemente condicionadas, mas tínhamos de agir pastoralmente, de modo consciente e livre no sentido de responder à ameaça da pandemia e defender o bem comum.
         

III – A importância da Eucaristia na vida da Igreja
 

7. As restrições impostas impediram as pessoas de participar, de modo habitual, na Santa Missa. Esta privação temporária, especialmente aos domingos, ajudou os fiéis a perceber a importância da Eucaristia na vida espiritual do crente e da comunidade cristã. É que “a celebração eucarística está no centro do processo de crescimento da Igreja[15].” De facto, a Igreja faz a Eucaristia e vive da Eucaristia, que a edifica[16]. Por isso, a Igreja não deixa de celebrar a Eucaristia[17], memorial da morte e ressurreição do seu
Senhor e obra da nossa redenção[18] e nunca deixou de alimentar o povo de Deus à mesa do Corpo de Cristo, Pão da Vida.
 

A privação da participação presencial na Eucaristia, nesta circunstância particular, não minimizou no coração dos fiéis o valor da Sagrada Eucaristia, antes acentuou a sede de tomar parte fisicamente no banquete eucarístico, dom por excelência, porque é um dom da Pessoa de Cristo à Sua Igreja.  

A Eucaristia não é uma simples ação privada do sacerdote enquanto pessoa que a preside, mas é ação da Igreja que ele, enquanto ministro validamente ordenado, realiza em nome de Cristo-Cabeça e para o bem de todo Corpo Místico de Cristo. Cada eucaristia, portanto, mesmo quando é celebrada sem assistência ou numa remota região da Terra, possui sempre o sinal da universalidade[19]
 

É bem significativo ver que quando o presidente da celebração diz: “Orai irmãos para que o meu e vosso sacrifício seja aceite por Deus Pai todo Poderoso”, o povo responde pedindo ao Senhor que receba pelas mãos do sacerdote “este sacrifício, para glória do Seu nome, para nosso bem e de toda a santa Igreja”[20]. Trata-se de uma ação litúrgica que beneficia toda a Igreja, Santa na Sua Cabeça e pecadora nos seus membros, local e universal, que está ‘presente’, transcendendo o espaço e o tempo em que uma determinada celebração acontece.
 

8. A Eucaristia é atualização da única e definitiva entrega de Cristo por nós, já que “o sacrifício é sempre um só” [21] e cada celebração eucarística aplica a reconciliação obtida por Cristo, uma vez por todas, à humanidade de todos os tempos. De modo sacramentalmente maravilhoso, a Eucaristia une a Igreja peregrina e a Igreja celeste, pois quando celebramos o Sacrifício do Cordeiro, “unimo-nos à liturgia celeste, associando-nos àquela multidão imensa que clama: a salvação, a glória e o poder pertencem ao nosso Deus…[22]” (Ap 7, 10)
.
 

Vê-se, por estas e outras razões, como é grande o mistério da Eucaristia e sua importância na vida da Igreja. Por isso, para incentivar a continuação da bela tradição secular de participação na missa dominical, a igreja instituiu-a como um preceito: “no domingo e noutros dias festivos os fiéis têm obrigação de participar na Missa” (Código de Direito Canónico, 1983, can. 1247), onde Jesus se oferece a si mesmo como Pão e fonte da vida.  

9. Todavia, ciente de que há situações que impedem os fiéis de participarem presencialmente na Eucaristia, a Igreja, Mãe e Mestra, ensina que se pode assistir com proveito espiritual às transmissões da Missa nos meios de comunicação social como rádio, televisão e redes sociais. No entanto, nós queremos deixar bem claro aos fiéis que nada substitui plenamente a sua presença física na Eucaristia, que é ‘lugar’ próprio da comunhão sacramental, onde o fiel recebe o verdadeiro Corpo e Sangue de Cristo, imolado para a remissão dos pecados.        

IV – Uma fé operante brota da Palavra e da Eucaristia
 

10. Centro da vida eclesial, a Sagrada Eucaristia é sem dúvida, o mistério admirável da nossa fé[23]
. Acreditamos que na eucaristia é o próprio Cristo, Pão vivo descido do Céu para a vida do mundo (cf. Jo 6, 51- 55), que se faz verdadeira comida para a Igreja.
 

Com efeito, pela comunhão do Santíssimo Corpo de Cristo, o batizado transforma-se em outro Cristo, missionário do Pai, a andar pelos caminhos do mundo quais arautos da Boa Nova, para edificar cada dia o Reino de Deus nas famílias e comunidades. Assim sendo, o encontro com Cristo, alimentado conscientemente na intimidade eucarística, deve despertar na Igreja como um todo, em cada comunidade cristã e em cada cristão a urgência de evangelizar, pois há uma íntima relação entre o banquete e o anúncio[24]. Quem comunga Cristo, reparte a sua vida com o irmão, sobretudo os mais pequenos, em quem o Senhor espera ser encontrado, amado e servido (Cf. Mt 25,45; Mc 9, 35).
 

11. Todas as comunidades cristãs nas nossas dioceses, ao mesmo tempo que sentiram e expressaram o vazio deixado pela falta de participação presencial da Eucaristia, foram oportunamente convocadas e desafiadas pelos bispos e párocos a se lançarem numa missão concreta, ao serviço dos mais necessitados, através de gestos de solidariedade material e espiritual, testemunhando em tempos de calamidade e emergência a vitalidade da fé[25].
 

Expressamos aqui o reconhecimento de que essa missão foi abraçada pelo povo de Deus, com alegria e com espírito de sacrifício, fruto e sinal de uma fé sustentada pela Palavra e pela Eucaristia.  

Exortamos, vivamente, cada batizado, as famílias, as paróquias, as associações e movimentos de todas as Comunidades a manifestarem cada vez melhor e de muitas maneiras, a ligação estreita entre a celebração da Eucaristia e a caridade fraterna, particularmente neste tempo extraordinário de grandes desafios para toda a sociedade.  

V – Os pilares da fé, da vida humana e da vida em sociedade
 

12. Perante a situação mundial de emergência sanitária e socioeconómica, a Igreja, a nível universal e no nosso país, movida pelo Espírito Santo que a anima e guia, fez-se presente e atuante, no âmbito específico da sua missão, cumprindo a sua responsabilidade na defesa e promoção do bem comum, como é a saúde, a defesa e a proteção da vida integral do homem em todas as situações e circunstâncias[26]. É nesta linha que a Caritas Cabo-verdiana e a Caritas das duas dioceses prontamente acudiram a milhares de irmãos nossos em situação de vulnerabilidade, contando com o empenho dos próprios membros, das paróquias e dos homens e mulheres de boa vontade, em muitas comunidades do país e da diáspora.
 

Estamos cientes de que em toda esta provação tivemos a graça e a oportunidade de poder revisitar alguns pilares essenciais da nossa fé e da vida, em todas as suas manifestações, seja na dimensão sacramental, seja na vivência do amor e do cuidado dos irmãos. Esta crise foi uma boa ocasião para se descobrir e distinguir o essencial do secundário, a nível da fé e da existência terrena e para desenvolver o sentido da Providencia divina. Sim, Deus cuida sempre da Humanidade.  

13. A crise sanitária e socioeconómica ligada à Covid-19 colocou a descoberto a realidade das limitações do ser humano e o grande valor da interdependência na sociedade. Tudo é contingente e relativo. Só Deus é Absoluto e só Ele basta. Nós precisamos de Deus e uns dos outros. Neste barco, estamos todos. Não somos autossuficientes, sozinhos afundamos (cf. Papa Francisco, Homilia na Oração pela Humanidade, 27 de Março de 2020). Cremos que é salutar a convicção de que a nível social, económico, cultural e político-partidário nenhum sistema é capaz de dar uma resposta definitiva aos desafios de um país, pelo que o diálogo aberto, sincero, democrático, sem manipulação de espécie alguma é o melhor caminho para se avançar seguro rumo a uma sociedade mais humana que todos desejamos construir.
 

14. As provações e dificuldades do mundo não devem ser impedimento para avançarmos em direção a uma maior plenitude de vida. Anima-nos a grande certeza de que Cristo, Caminho, Verdade e Vida,[27] caminha connosco para um mais além, como Ele prometeu,[28]
pois não temos aqui morada permanente. A dimensão escatológica da vocação da Igreja e a dimensão transcendente do Homem não se opõem ao reconhecimento da autonomia das realidades terrestres, no âmbito que lhes é próprio. No nosso país não houve e nem se justificam confrontações gratuitas entre as orientações e instruções sanitárias e socioeconómicas das autoridades civis e as orientações pastorais e litúrgicas, emanadas pelas autoridades eclesiais. São orientações de “reinos diferentes” ao serviço do Homem: A César o que é de César e a Deus o que é de Deus[29].
   

VI – Novas práticas sociais e implicações pastorais
 

15. Este tempo de provação tem exigido novas atitudes e novos comportamentos na família e na sociedade, bem como uma contínua conversão moral e espiritual, que afetam a ação pastoral e até práticas litúrgicas. Enquanto Igreja, cumprimos e incentivamos as novas práticas sanitárias, como a lavagem frequente das mãos, o uso do álcool-gel, o uso de máscaras e distanciamento físico.  

Uma consequência pastoral da Covid-19 foi a prática imediata da ‘oração familiar’ com mais frequência e qualidade, indício de que há potencialidades a desenvolver a nível da ’Igreja doméstica’, evangelizada e evangelizadora, centrada no anúncio da Palavra, na celebração dos Sacramentos e no testemunho da Caridade.  

Assim como ao longo dos séculos o Povo de Deus encontrou na Palavra do seu Senhor a sua força, também hoje, em tempos de acesso mais difícil aos sacramentos e aos sacramentais, as comunidades eclesiais crescem na escuta, na celebração e no estudo da mesma Palavra[30].
 

16. Neste sentido, constatamos com alegria e sentido de esperança que a Igreja, Sacramento da Salvação, esteve sempre presente e manifestou-se especialmente no lar, no seio da família, na sua dimensão da “Igreja doméstica”[31], como bem nos ensina São João Paulo II[32]. As famílias das nossas dioceses desenvolveram com criatividade e devem continuar a fazê-lo para além deste tempo a sua missão própria, cujas raízes se fundam no batismo[33] de cada um dos seus membros e no tríplice múnus sacerdotal, real e profético daí adveniente[34].
 

Ressaltamos aqui a dimensão sacerdotal dos batizados, pela qual, na vida familiar e profissional, oferecem “toda a sua atuação cristã, sacrifícios espirituais, proclamando assim a grandeza d’Aquele que os chamou das trevas à sua luz maravilhosa (Cf. 1 Pd, 2, 4-10)[35]. Os pais e os filhos, enquanto família, devem empenhar-se “nas obras de serviço à comunidade eclesial e civil”
[36].
             

VII – Recomendações relativas aos novos desafios sociais e eclesiais
 

17. Jesus Cristo, que esteve a caminho com os discípulos de Emaús e prometeu ficar connosco até ao fim dos tempos[37]. Também hoje Ele nos acompanha neste caminho novo que se vai desenhando, e que exige de cada um de nós disponibilidade contínua de aprendizagem social e conversão pastoral.
 

Este novo tempo apresenta-se também como uma nova oportunidade que as nossas paróquias, as famílias, as associações e movimentos, assim como todas as comunidades e todos os batizados em geral têm para evangelizar usando novos métodos, nova linguagem e novo ardor missionário.  

18. Já sentimos o alívio gradual de algumas restrições e estamos a retomar progressivamente as nossas atividades antes suspensas ou muito condicionadas, nomeadamente as celebrações da Eucaristia. Olhamos para o futuro com esperança, colocando em ação as boas práticas e preparando-nos para tempos de mudança já em curso. Constatamos que:

A)   
A pandemia da Covid-19 levou-nos a tomar uma maior consciência da fragilidade e das limitações humanas, da corresponsabilidade coletiva, da importância da solidariedade entre as pessoas e da necessidade de um novo estilo de vida;

B)   Vivemos num tempo novo que é, naturalmente, um tempo de (re)conversão. Enquanto nos vamos adaptando às novas situações da vida social e nos vamos convertendo às novas exigências da evangelização, estaremos melhor preparados para a vida, a nível individual, familiar e comunitário;
C)   As pessoas devem preparar-se para ser capazes de equilibrar os valores do estar em família com o trabalho, as finanças, o lazer e outras dimensões da existência. Como terá sido rica, para muitos, a descoberta da dimensão sacramental da família enquanto “Igreja doméstica”[38] em missão apostólica no seu interior e inserida na Igreja em saída, cujas raízes se fundam no batismo;
D)   Perante o aparente silêncio do Deus de Amor e da compaixão, todos, em situação de confinamento, fomos confrontados no nosso íntimo com os nossos medos, inseguranças, enfim, a nossa pequenez. Tudo isso ampliado pelas informações com que a comunicação social nos invadia. Mas sabemos que em tudo isso, ressoa a voz de Deus que nos chama a confiar plenamente n’Ele;
E)   São muitas as ocupações e correrias do dia-a-dia em tempos “normais”, tidas por inadiáveis, mas que, afinal, não o são. É possível ter mais e melhor tempo para a família e para a intimidade com Deus, o que, de facto é essencial e tanta falta nos faz;
F)   Na ausência da catequese, na forma a que estamos habituados, ficou bem clara a importância e necessidade da promover com urgência a catequese na família, que une as diversas gerações, avós, pais e filhos e demais membros na partilha e no aprofundamento contínuo da fé;
G)   Muitas famílias, por iniciativa própria, fizeram experiências da partilha da Palavra de Deus em casa, reforçando, assim a realidade da família como casa de Deus, ‘igreja doméstica’. Como pastores, desafiamos cada família a prosseguir com esta bela experiência, a partilhá-la com as famílias vizinhas e a enriquecê-la com a lectio divina e outros métodos, contando com os padres e outros animadores da pastoral;
H)   O distanciamento físico e o confinamento em casa levaram à redescoberta do valor da proximidade física e da sã convivência entre as pessoas, bem como a dar o justo valor ao nosso próximo, ao sorriso, ao abraço, à presença e a toda a palavra amiga, que superam de longe a representação virtual dessas realidades no mundo digital;
I)   O uso das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC), nomeadamente das redes sociais deve ser valorizado ao serviço da evangelização e da comunhão humana.[39] Reconhecemos que no tempo da pandemia os responsáveis pela pastoral da Comunicação nas duas dioceses, deram um grande impulso neste domínio, usando criativamente tais meios, permitindo a participação virtual de milhares de fiéis nas celebrações litúrgicas nas ilhas e na diáspora;
J)   É preciso ter presente as reiteradas recomendações que a Igreja vem fazendo sobre o uso correto das TIC e a necessidade de se estar atento aos ataques à fé e à Igreja, às manipulações da realidade através do fake news[40] e, pior ainda, do deepfake. Daí que alertamos os fiéis para a realidade do consumo e transmissão das notícias falsas, que transtornam a vida das pessoas, das famílias e das instituições; para estarem nas redes sociais com espírito crítico e terem a ‘sapiência para patrocinar e criar narrações belas, verdadeiras e boas[41];
K)   Há sérios riscos de digitalização da fé e tendência para a virtualização da vida. Convém notar que não existe Eucaristia, nem qualquer sacramento digital, como a Santa Sé já veio expressamente esclarecer;
L)   Devemos, enquanto pastores, promover o aprofundamento as várias dimensões da Igreja Sacramento, nomeadamente a da “Igreja doméstica” e suas implicações na vida das comunidades e das famílias;
M)   As famílias e os movimentos que a elas se dedicam, devem procurar novas expressões da vivência da fé - oração, liturgia e serviço fraterno (diaconia) e formas criativas de ultrapassar os desafios que enfrentam;
N)   O Maligno aproveita-se dos momentos da maior fragilidade material e espiritual do ser humano, de incertezas e inseguranças para destruir a fé e a vida familiar. Mais do que nunca, devem ressoar nos nossos ouvidos as palavras do Mestre: vigiai e orai! (Mt 26, 41).

VIII – No barco, sem medo, porque Jesus está no leme
 

19. ‘Porque sois tão medrosos? Ainda não tendes fé? (Mc 4,40). Estas palavras de Jesus aos apóstolos no meio da tempestade, comentadas pelo Papa Francisco[42], desafiam-nos abertamente a permanecer no barco e a confiar em Cristo Ressuscitado que está vivo e está no leme e nos ajuda a ir mar adentro enfrentando as tempestades. O Mestre e Senhor nosso faz converter em bem tudo o que nos acontece, mesmo as coisas ruins[43]. Com Ele não há naufrágio e o barco chegará a bom termo da viagem.
 

20. A Igreja, por ser fermento do Evangelho na sociedade, tem a obrigação de cumprir com a sua dimensão profética; de estar atenta e discernir os “sinais dos tempos”[44] para intuir os caminhos da sua missão salvífica, em cada tempo concreto. É o melhor presente da Igreja ao mundo.
 

A nível de Santa Sé, o Papa mandou criar uma Comissão com vários grupos de trabalho para analisar e refletir os desafios socioeconómicos e culturais do futuro e apresentar propostas de diretrizes para enfrentá-los. A nível das nossas dioceses, estamos igualmente empenhados na procura de caminhos a seguir nos próximos tempos. 
 

Deve-nos merecer particular atenção a dignidade humana e novos métodos e conteúdo de solidariedade social. Estamos conscientes de que nestes momentos não faltarão lobos para semear o medo no rebanho do Senhor,[45]; joio no meio do trigo[46]. O Demónio, o pai da mentira, perante o povo debilitado, age com as suas propostas mais tentadoras[47]. O Senhor nos garante: Tende coragem. Eu venci o mundo[48].
           

Comprometidos e esperançosos na vitória
 

21. O nosso pensamento e a nossa prece dirigem-se a Deus pelos nossos irmãos e irmãs, no país e na diáspora, que morreram vítimas desta pandemia; pelos seus familiares e amigos e por todos os que, de uma forma ou de outra, sofrem os efeitos da Covid-19, nomeadamente a pobreza, a dor e a solidão.
 

Manifestamos o nosso apreço às autoridades do país que têm a responsabilidade de tomar decisões e adotar medidas sanitárias e socioeconómicas para o combate a esta pandemia e providenciar um adequado tratamento aos doentes e todos os que são atingidos por esta crise. Alegramo-nos com todos os que estiveram doentes e ficaram curados da Covid-19. Pedimos paciência e nos solidarizamos com quantos estão em quarentena. É um período difícil, mas é um ato de amor.
 

O nosso particular agradecimento aos profissionais da saúde, da Proteção Civil e doutros ramos de atividade que têm estado na linha da frente na luta contra a pandemia. Eles dão o melhor de si para salvar vidas e aliviar o sofrimento dos doentes.  

Cientes de estarmos ainda em plena pandemia da Covid-19 e tendo feito um percurso de aprendizagem para conter a propagação do vírus, cremos que havemos de superar esta crise. Mas, para tal, devemos manter-nos unidos, solidários uns com uns outros, observando fielmente as medidas indicadas pelas autoridades competentes nas diversas áreas que dizem respeito à luta contra esta pandemia.  

Como batizados, usando a força da inteligência, da vontade e da fé em Jesus Cristo Vivo, sempre presente na história da nossa nação, empenhemo-nos com determinação em buscar o alimento da Palavra de Deus e da Eucaristia, nesta travessia que promete ser longa.  

“Eis a tua mãe”! [49] Estas palavras de Jesus reacendem a certeza de que connosco caminha a Virgem Maria, Mãe carinhosa, que invocamos como Senhora da Graça, padroeira da pro-catedral da diocese de Santiago de Cabo Verde, e como Senhora da Luz, padroeira da pro-catedral da diocese de Mindelo.
 

Por nós também intercede S. João Paulo II, o Papa que, em 1990, pisou o chão destas ilhas que tanto amamos, confirmou a fé que professamos e abençoou o povo na hora da despedida, dizendo: “A Deus vos confio” [50].
 

Que Deus, Pai Filho e Espírito Santo, encha os corações de todos os cabo-verdianos espalhados pelo mundo e os estrangeiros que vivem entre nós, com a Sua Infinita Misericórdia.
       

Dada na Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, 14 de Junho de 2020                   

Arlindo Cardeal Gomes Furtado, 
 Bispo de Santiago 

† Ildo Fortes, 
Bispo de Mindelo

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NOTAS

[1] O Ressuscitado precede-nos e acompanha-nos pelas estradas do mundo. É Ele a nossa esperança, é Ele a verdadeira paz do mundo (Papa Bento XVI, Homilia no Domingo de Páscoa da Ressurreição do Senhor, 12 de abril de 2009.
[2] Mt 28,19.
[3] 2 Cor 6, 20.
[4] A lectio Divina ou Leitura Orante é um método de oração praticado na Igreja desde tempos antigos e ainda hoje aconselhado pelos Papas. Desenvolve-se em 4 etapas fundamentais: Leitura, meditação, oração e contemplação. Cf. Papa Francisco, Exortação Apostólica Evangelii Gaudium (Alegria do Evangelho),152-153. 
[5] At 2,42.
[6] Cf. Papa Francisco durante o Regina Coeli, em 13 de maio de 2018.
[7] Cf. Mt 28, 19-20.
[8] At 1, 4-5.
[9] Lc 24, 13-35.
[10] Cf. Papa Francisco, Evangelii Gaudium, capítulo I, 20-23; 120-121.
[11] Ovídeo Martins, in Flagelados do Vento Leste.
[12] Ibidem.
[13] Decretada pelo Governo em todo o território nacional, no dai 18 de Marco. Cf. Despacho Conjunto n.º 1/2020 do Ministério das Finanças, Ministério da Administração Interna e Ministério da Saúde e Segurança Social de 18 de março.
[14] Cf. Comunicado conjunto dos Bispos de Santiago e Mindelo de 19 de março de 2020.
[15] João Paulo II, Exortação Apostólica Ecclesia de Eucharistia (Roma 2003), 21.
[16] Cf. Idem, 7
[17]  O único dia em que não se celebra a Eucaristia é a sexta feira santa, dia da Morte do Senhor.
[18] Cf. João Paulo II, Exortação apostólica Ecclesia de Eucharistia (Roma 2003), 11.
[19] Cf. João Paulo II, Carta Apostólica Mane nobiscum (Roma 2003), 27
[20] Resposta do povo, na Missa, antes da oração sobre as oblatas.
[21] Idem, 12
[22] Cf. Idem, 19
[23] Aclamação no final da Consagração
[24] Cf. João Paulo II, Carta Mane Nobiscum (2004) 24
[25] Cf. Tg. 2, 14: A fé sem obras é morta.
[26] Cf. Evangelium Vitae, 5.
[27] Cf. Jo 14, 1-6.
[28] Ibidem.
[29] Cf. Mc 12, 13-17.                       
[30] Cf. Papa Bento XVI, Exortação Apostólica Verbum Domini, 3
[31] Cf. Lumen Gentium, 11
[32] Cf. Gratíssimam Sane, 18.
[33] Cf. Familiaris Consortio, 52.
[34] Cf. Catecismo da Igreja Católica, §1273.
[35] Cf. Constituição Dogmática do Vaticano II, Lumem Gentium, 10, 11.
[36]  João Paulo II, Exort. Apost. Familiaris consortio, 50
[37] Cf. Mt. 28, 20.
[38] Ver especialmente Carta do Papa João Paulo II às Famílias, “Gratissimam Sane”, 1994 (Ano da Família); e Exortação Apostólica “Familiaris Consortio, 1981, 21”
[39] Conforme o Magistério da Igreja desde o Concílio Vaticano II até o Papa Francisco.
[40] Fake news são notícias falsas. Cf. 54ª Mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial das Comunicações Sociais, 2020, 2
[41] Ibidem
[42] Cf. Papa Francisco, Homilia da celebração e bênção Urbi et Orbi, em 27 de março passado, na Praça de S. Pedro.
[43] Ibidem
[44] Gaudium et Spes, 4.
[45] Cf. Mt 7, 15.
[46] Cf. Mt 13, 24-43.
[47] Cf. Mt 4, 1-11.
[48] Cf. Jo 16, 33
[49] Jesus, no alto da Cruz, ao discípulo amado. Cf. Jo 19, 26-27
[50] Cf. Discurso de despedida no aeroporto Francisco Mendes, Janeiro 1990

Fonte: Dioceses de Santiago e de Mindelo

 



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