Carta Pastoral de Dom Ildo Fortes para 2018/19 - A FAMÍLIA, UM TESOURO

2018-09-19       Actualidade       Igreja  

  

A Igreja comunidade familiar que ama e educa os seus jovens para a formação integral: Recuperar a humanidade no coração do homem. 
Após um ciclo de dinâmica pastoral centrada na Reconciliação, Justiça e Paz, damos início a um novo triénio pastoral que terá, sucessivamente, como ponto focal: a Família, a Juventude e a Educação. 

A família constitui, na visão da Igreja, um dos pilares fundamentais da sociedade, «um dos bens mais preciosos da humanidade» (Familiaris Consortio, 1). No dizer de São João Paulo II, a família é um «santuário de vida» e, como afirmou o Concílio, ela é «património da humanidade» (LG 11), é a célula primeira e vital da sociedade (AA 11). Portanto, ela é o lugar sagrado, o santuário donde brota a vida e os bens essenciais à nossa realização como pessoa.



CARTA PASTORAL PARA O ANO 2018-19 - FAMÍLIA, JUVENTUDE E EDUCAÇÃO  

Família um tesouro da humanidade

A família constitui, na visão da Igreja, um dos pilares fundamentais da sociedade, «um dos bens mais preciosos da humanidade» (Familiaris Consortio, 1). No dizer de São João Paulo II, a família é um «santuário de vida» e, como afirmou o Concílio, ela é «património da humanidade» (LG 11), é a célula primeira e vital da sociedade (Apostolicam Actuositatem, 11). Portanto, ela é o lugar sagrado, o santuário donde brota a vida e os bens essenciais à nossa realização como pessoa. Mas, temos de admitir que na sociedade cabo-verdiana, esta realidade atravessa uma profunda crise e, não será ousado dizer que, de certo modo, ela está enferma. 

Na família humana encontramos, hoje, luzes e sombras. «Por um lado, existe uma consciência mais viva da liberdade pessoal e uma maior atenção à qualidade das relações interpessoais no matrimónio, à promoção da dignidade da mulher, à procriação responsável, à educação dos filhos [...]; há a descoberta de novo da missão eclesial própria da família e da sua responsabilidade na construção de uma sociedade mais justa. Por outro lado, contudo, não faltam sinais de degradação preocupantes de alguns valores fundamentais: uma errada concepção teórica e prática da independência dos cônjuges entre si; as graves ambiguidades acerca da relação de autoridade entre pais e filhos; as dificuldades concretas, que a família muitas vezes experimenta na transmissão dos valores; o número crescente dos divórcios; a praga do aborto; o recurso cada vez mais frequente à esterilização; a instauração de uma verdadeira e própria mentalidade contraceptiva» (FC 6).

Entre as ameaças graves que pairam sobre a família, está a ideologia de género que, desgraçadamente, se está a pensar introduzir no nosso sistema de ensino. Para além de ser estranha à nossa cultura e contrária ao pensamento e à sensibilidade da nossa gente, estamos diante daquilo a que o Papa Francisco chamou de demoníaco e diz que é maldade ensinar a ideologia de género às crianças. Já Bento XVI tinha dito que ensinar tais doutrinas é um pecado contra Deus Criador; pois, Deus criou o Homem: homem e mulher os criou (Gen 1, 28); Ignorar isto e ensinar o contrário é ir contra Deus.


Na Exortação Apostólica do Papa Francisco Amoris Laetitia (nº285) se chama a atenção que: «a educação sexual deveria incluir também o respeito e a valorização da diferença, que mostra a cada um a possibilidade de superar o confinamento nos próprios limites para se abrir à aceitação do outro. Para além de compreensíveis dificuldades que cada um possa viver, é preciso ajudar a aceitar o seu corpo como foi criado, porque “uma lógica de domínio sobre o próprio corpo transforma-se numa lógica, por vezes subtil, de domínio sobre a criação. (...) Também é necessário ter apreço pelo próprio corpo na sua feminilidade ou masculinidade, para se poder reconhecer a si mesmo no encontro com o outro que é diferente. Assim, é possível aceitar com alegria o dom específico do outro ou da outra, obra de Deus Criador, e enriquecer-se mutuamente”. Só perdendo o medo à diferença é que uma pessoa pode chegar a libertar-se da imanência do próprio ser e do êxtase por si mesmo. A educação sexual deve ajudar a aceitar o próprio corpo, de modo que a pessoa não pretenda “cancelar a diferença sexual, porque já não sabe confrontar-se com ela”».


Outro aspecto que mancha a imagem da família, entre nós, é o uso abusivo e excessivo do álcool, por toda a parte (muitas vezes exponenciado por actividades que fomentam o consumo do mesmo) e com consequências gravíssimas para as famílias e para a sociedade (ao nível financeiro, desempenho profissional, relacionamento harmonioso e familiar, etc.); envergonha-nos o desrespeito pelo outro, pela sua vida e por aquilo que é seu, a ausência descarada de civismo e de boas práticas de convivência social.

Escasseiam as famílias que levem a sério a educação como missão, negligenciando princípios fundamentais que assentam suas raízes no Evangelho de Jesus Cristo e na sã tradição secular que plasmou o tecido humano da identidade cabo-verdiana. «Na raiz destes fenómenos negativos está muitas vezes uma corrupção da ideia e da experiência de liberdade concebida não como capacidade de realizar a verdade do projecto de Deus sobre o matrimónio e a família, mas como força autónoma de afirmação, não raramente contra os outros, para o próprio bem-estar egoístico (FC 6). «O lugar que o amor deveria ocupar foi arrebatado por vários tipos de prazeres (desde o sexo às drogas) e mais ainda pelo amor a si próprio – o narcisismo que, com a difusão do individualismo moderno e pós-moderno, se transformou, não num simples problema de indivíduos, mas numa das características mais típicas da nossa cultura» (Tomás Halík, Quero que tu sejas
, 164). Precisamos, urgentemente, de famílias que não se demitam da sua missão de amar, servir, educar e formar, de modo integral, os seus membros.


Após um ciclo de dinâmica pastoral centrada na Reconciliação, Justiça e Paz, damos início a um novo triénio pastoral que terá, sucessivamente, como ponto focal: a Família, a Juventude e a Educação. A Igreja comunidade familiar que ama e educa os seus jovens para a formação integral: Recuperar a humanidade no coração do homem.


Neste primeiro ano, o acento é posto na família. Desejamos que todas as comunidades paroquiais, que em si mesmas já são uma família - comunidade de comunidades, aceitem o desafio de ajudar a emergir no seu seio, famílias cristãs sólidas, imbuídas do espírito evangélico e de valores humanos, capaz de edificar a sociedade em qualquer lugar. É com muita satisfação que vemos crescer, em quase todas as ilhas, os movimentos que estão ao serviço do bem comum da família e do seu crescimento humano e espiritual: as Equipas de N. Senhora, a Fraternidade Jesus Maria José e a Comunidade Emanuel, entre outros. Contamos com o precioso contributo destes movimentos para a dinamização duma pastoral renovada da família. Várias paróquias têm estruturado um secretariado da família e têm vindo a ensaiar formas de colmatar as lacunas que encontramos neste domínio. O Secretariado de Acção Pastoral (SAP) apresenta algumas pistas que pretendem ajudar as comunidades a pôr de pé, acções pastorais bem concretas. Estas pistas encontram-se nas Orientações Pastorais que habitualmente acompanham esta Carta Pastoral. Também o Secretariado Diocesano da Família fará chegar, às paróquias e movimentos, algumas directrizes e propostas de acção pastoral.

Que a Igreja em Cabo Verde, não seja simples espectadora diante do palco destas situações preocupantes e que desfiguram o rosto da sociedade cabo-verdiana, tão orgulhosa de si ao longo de séculos. Ela, consciente da sua missão, tem um papel fundamental que é ser candeia que vai à frente e ilumina; Ela é portadora da Palavra que desperta as consciências e convida à conversão; Ela chama a arrepiar caminhos perigosos e resvalantes para a decadência social; Ela está comprometida com a «civilização do amor» que os Papas Paulo VI e João Paulo II tanto desejaram. Este mundo em constante e veloz mutação, plural e multifacetado, que absorve novidades sem filtrar, a cada instante, não permite avaliar facilmente, os seus contornos e distinguir bem o que são sombras e luzes, padrões a evitar ou a adoptar. Assim, estar atento aos «sinais dos tempos» é um imperativo e, no meio desta encruzilhada, não podemos permanecer sem tomar uma posição firme. Há que saber discernir com paciência e sabedoria. Não tenhamos ilusões, a nossa voz há-de assemelhar-se à «voz que brada no deserto», num movimento contra a corrente. Seja como for, estar na Igreja, como num «hospital de campanha», deverá ser a nossa atitude. Isto é, estar disponível para acompanhar os que caiem, os que se magoaram por causa da injustiça e da falta de amor, os que se desorientaram e perderam no meio dos mares turbulentos da vida.

Ao longo deste ano em que destacamos a família como um tesouro, porque o bem da família é decisivo para o futuro do mundo e da Igreja (cf AL 31), gostaríamos que os jovens tivessem um papel de relevo, porque também são chamados a ser protagonistas da história com esperança que queremos escrever. Os jovens e as crianças, constituem uma grande esperança e uma alegria para as famílias mas, ao mesmo tempo, são vulneráveis e são as primeiras vítimas das más opções e dos dramas que experimentam nos seus ambientes. No gizar dos nossos programas, contemplemos aquilo que visa provocar a cultura do encontro: encontro de gerações; encontros marcados pelo amor e pela alegria da relação séria, verdadeira, libertadora, com sabor a generosidade e serviço. A felicidade, remarcava Jesus, está mais em dar do que em receber; coisa que o mundo desconhece e que precisamos de aprender em casa, a começar no berço.

É na família e em clima de comunhão, que encontramos aquele húmus tão necessário para a nossa realização e plenitude. Tomás Halík escreve que: «a experiência mais importante, mais necessário para a vida e para o desenvolvimento saudável de uma pessoa, é sentir-se que é (ou que foi) amada. Essa é a única verdadeira aprendizagem do amor; a única forma de aprender a amar é deixar que o amor nos «infecte». Alguém que não é amado nunca conseguirá amar». Que as nossas famílias cresçam para a glória de Deus e bem da sociedade. Que as palavras do justo Josué nos inspirem o modo de viver em nossa casa: «Eu e a minha família, serviremos o Senhor» (Josué 24, 15).


Alguns subsídios do Magistério da Igreja nos ajudam a aprofundar mais, o sentido, o valor e a responsabilidade da família no mundo actual. Recomendo vivamente que se leia ou se volte a visitar a belíssima Exortação Amoris Laetitia, que nos ajuda a fazer uma leitura realista da família, hoje. Nela, é notório o desejo de «estimular a apreciar os dons do matrimónio e da família e a manter um amor forte e cheio de valores como a generosidade, o compromisso, a fidelidade e a paciência; e também encorajar todos a serem sinais de misericórdia e proximidade para a vida familiar, onde esta não se realize perfeitamente ou não se desenrole em paz e alegria» (Cf. AL 5).


A Sagrada Família de Nazaré, comunidade pobre, simples e humilde mas rica de amor, alegria e paz, inspire o jeito de ser família nas nossas comunidades!

Sal, 15 de Setembro de 2018, Festa de Nossa Senhora das Dores      
                   
  
† Ildo Fortes, Bispo de Mindelo

Fonte: Diocese de Mindelo

 



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