CARTA PASTORAL 2020-21 DO BISPO DE MINDELO, D. ILDO FORTES

2020-10-09       Actualidade       Igreja  

  

Dom Ildo Fortes, como acontece no inicio de cada ano pastoral, dirige uma Carta aos seus fiéis, desta vez tendo em conta a situação extraordinária que vivemos com a pandemia. A Igreja é chamada a anunciar a esperança em qualquer circunstância. Diz ele: «O nosso plano pastoral nestes três últimos anos centra-se na família - Família um tesouro da humanidade; e a partir daqui pretendíamos chegar a uma pastoral juvenil renovada e comprometermo-nos numa dinâmica de educação para os valores que na nossa sociedade reclamam uma urgente ascensão. Agora, mais do que nunca, com a actual situação em que vivemos, devido a uma pandemia que veio desestabilizar tudo e ao mesmo tempo grita por uma nova ordem, a família – Igreja doméstica - é chamada a ocupar o seu lugar central e decisivo para a recuperação da humanidade no nosso coração humano. Humanidade no sentido de recuperar os valores mais genuínos que o Criador semeou no nosso coração de todos os homens e mulheres: o amor, a verdade, a justiça, a solidariedade, o respeito pelo outro chamado como eu a existir com liberdade e dignidade sobre a mesma terra; humanidade também no sentido de fazer emergir uma nova humanidade, uma nova maneira de viver em sociedade»
Eis a carta na Íntegra:

CARTA PASTORAL PARA O ANO 2020-21

RECUPERAR A HUMANIDADE NO CORAÇÃO DO HOMEM 
Educar para os valores da comunhão e solidariedade

Estimados irmãos e irmãs, 

Em tudo e sempre, louvor, gratidão e esperança porque o Senhor está connosco! 

Os desígnios de Deus são insondáveis e os seus planos não são os nossos. Assim, a surpresa bateu forte à nossa porta, pondo em evidência a nossa fragilidade e comprometendo os nossos planos. Já na Carta Pastoral do ano passado, que tinha os jovens como foco principal, dizíamos: «Frente a estas dificuldades todas e outras mais, não podemos perder a esperança na vida nem a força que nos anima. Pois, das grandes verdades aos quais devemos dar crédito, uma delas é que Deus nos ama. Deus te ama muito caro jovemDiz Francisco: «Deus ama-te». Mesmo que já o tenhas ouvido – não importa! –, quero recordar-to: Deus ama-te. Nunca duvides disto na tua vida, aconteça o que acontecer. Em toda e qualquer circunstância, és infinitamente amado».  Os discípulos de Jesus vivem no meio da sociedade, e não são imunes aos males que afectam os seus semelhantes nem escapam às vicissitudes do tempo em que vivem. Como afirma o Concílio Vaticano II: «As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração» (Gaudium et Spes, 1).
 

Talvez até tenha sido boa para nós, esta provação pela qual passamos, para nos apercebermos que somos pequenos e frágeis e precisamos de contar sempre com a força da divina providência e com o apoio dos irmãos para prosseguirmos em frente mesmo quando o vento sopra forte e é de feição contrária. 

Por feliz coincidência, hoje, 4 de Outubro, dia de São Francisco, o Papa Francisco oferece ao mundo uma nova Encíclica dedicada à fraternidade e à amizade social – Fratelli Tutti. Nela, com o firme propósito de despertar caminhos novos, ele retoma a ideia que sublinhara durante a oração pela humanidade em 27 de Março de 2020 na Praça de S. Pedro: «É verdade que uma tragédia global como a pandemia do Covid-19 despertou, por algum tempo, a consciência de sermos uma comunidade mundial que viaja no mesmo barco, onde o mal de um prejudica a todos. Recordamo-nos de que ninguém se salva sozinho, que só é possível salvarmo-nos juntos. Por isso, «a tempestade – dizia eu – desmascara a nossa vulnerabilidade e deixa a descoberto as falsas e supérfluas seguranças com que construímos os nossos programas, os nossos projetos, os nossos hábitos e prioridades. (…) Com a tempestade, caiu a maquilhagem dos estereótipos com que mascaramos o nosso “eu” sempre preocupado com a própria imagem; e ficou a descoberto, uma vez mais, esta (abençoada) pertença comum a que não nos podemos subtrair: a pertença como irmãos» (FT 32).
 A nossa atitude, deve orientar-se sempre pelas últimas e consoladoras palavras de Jesus no Evangelho: eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos (Mt 28,20); Precisamos de nos unirmos e reinventarmos a solidariedade se não quisermos afundar. Esta é a interpelação que fazemos neste momento ao iniciarmos mais um ano pastoral: confiar no Senhor, nossa esperança, e caminharmos juntos descobrindo a humanidade que nos habita interiormente e promovendo a alegria da solidariedade. Não são poucos os irmãos que neste tempo, experimentaram e continuam a experimentar momentos difíceis nas suas vidas familiares e profissionais. A pobreza e a precariedade que já eram uma constatação para muitos, surgem agora com uma nova fisionomia para quem tinha começado a levantar-se. 

O nosso plano pastoral nestes três últimos anos centra-se na família - Família um tesouro da humanidade; e a partir daqui pretendíamos chegar a uma pastoral juvenil renovada e comprometermo-nos numa dinâmica de educação para os valores que na nossa sociedade reclamam uma urgente ascensão. Agora, mais do que nunca, com a actual situação em que vivemos, devido a uma pandemia que veio desestabilizar tudo e ao mesmo tempo grita por uma nova ordem, a família – Igreja doméstica - é chamada a ocupar o seu lugar central e decisivo para a recuperação da humanidade no nosso coração humano. Humanidade no sentido de recuperar os valores mais genuínos que o Criador semeou no nosso coração de todos os homens e mulheres: o amor, a verdade, a justiça, a solidariedade, o respeito pelo outro chamado como eu a existir com liberdade e dignidade sobre a mesma terra [1]; humanidade também no sentido de fazer emergir uma nova humanidade, uma nova maneira de viver em sociedade. Estarmos em profunda sintonia com o Papa Francisco, que acaba de afirmar na Fratelli Tutti: «Desejo ardentemente que, neste tempo que nos cabe viver, reconhecendo a dignidade de cada pessoa humana, possamos fazer renascer, entre todos, um anseio mundial de fraternidade… Ninguém pode enfrentar a vida isoladamente (…); precisamos duma comunidade que nos apoie, que nos auxilie e dentro da qual nos ajudemos mutuamente a olhar em frente. Como é importante sonhar juntos! (…) Sozinho, corres o risco de ter miragens, vendo aquilo que não existe; é juntos que se constroem os sonhos». Sonhemos como uma única humanidade, como caminhantes da mesma carne humana, como filhos desta mesma terra que nos alberga a todos, cada qual com a riqueza da sua fé ou das suas convicções, cada qual com a própria voz, mas todos irmãos» (FT 8).
 

Este sonho, o confiamos às famílias (e às comunidades), mestras e educadoras dos corações, para que ensaiem a missão de despertar no seu seio o amor e a solidariedade. Ajudem a recuperar a humanidade no coração de cada homem e mulher que a integra. As famílias são chamadas a uma missão educativa primária e imprescindível; pois, constituem o primeiro lugar onde se vivem e transmitem os valores do amor e da fraternidade[2]. A nossa catequese paroquial e as nossas escolas deverão estar cientes da nobre tarefa educativa para os valores, e que o Santo Padre deixa bem claro quando afirma: «Quanto aos educadores e formadores que têm a difícil tarefa de educar as crianças e os jovens, na escola ou nos vários centros de agregação infantil e juvenil, devem estar cientes de que a sua responsabilidade envolve as dimensões moral, espiritual e social da pessoa. Os valores da liberdade, respeito mútuo e solidariedade, podem ser transmitidos desde a mais tenra idade» (FT 114). A nossa tarefa educativa possa ajudar a pensar a vida humana de forma mais integral e contribua para uma melhor vida em comunidade. Lembra-se ainda que a Igreja «tem um papel público que não se esgota nas suas atividades de assistência ou de educação», mas busca a «promoção do homem e da fraternidade universal»[3].
 

Continuamos a propor aos jovens que assumam responsabilidades na sociedade e procurem viver tendo em conta os outros, numa atitude constante de entrega, de amor fraterno, generoso e misericordioso. Trata-se de abraçar o desafio da Igreja em saída

Que as nossas preocupações e problemas particulares (as dificuldades académicas, a incerteza do emprego e do futuro, os vazios, os desencontros e desencantos da vida quotidiana) não nos façam esquecer os outros. «Cuidar do mundo que nos rodeia e sustenta significa cuidar de nós mesmos. Mas precisamos de nos constituirmos como um «nós» que habita a casa comum» (FT 17). A seguinte advertência do Sucessor de Pedro é válida para todos os sectores da sociedade: «Passada a crise sanitária, a pior reação seria cair ainda mais num consumismo febril e em novas formas de autoproteção egoísta. No fim, oxalá já não existam ‘os outros’, mas apenas um ‘nós’» (FT 35). 

Anima-nos a certeza de que a esperança cristã e a unção que recebemos do amor de Cristo, têm força suficiente para curar os corações atribulados (cf. Is 61, 1) e superarmos os momentos dissonantes da nossa história. Ano passado por esta altura, vivíamos o Mês Missionário Extraordinário - Baptizados e Enviados. Com mais razão, este tempo reclama um renovado e extraordinário anúncio do Evangelho de Jesus Cristo. É tempo de fazer incarnar a Palavra, lá onde ela é capaz de transformar e suscitar uma nova humanidade. Jesus Cristo é o centro do cosmos e da história; o único capaz de revelar plenamente o homem ao próprio homem. Na dimensão humana do mistério da Redenção, o homem reencontra a grandeza, a dignidade e o valor próprios da sua humanidade (cf. Gaudium et Spes, 22; João Paulo II, Redemptor Hominis, 1.10). 

Estimados irmãos, que dificuldade e incertezas encontraremos no percurso, é certo, mas as dificuldades que parecem enormes são a oportunidade para crescermos, e não a desculpa para a tristeza inerte[4]. Parece-me que é legítimo colocar a questão que outrora o discípulo pusera: Senhor, a quem iremos? Ou seja, quem nos poderá salvar? Só Tu tens palavras de vida eterna (Jo 6, 68). Recomendamos ainda para nossa reflexão, a Carta Pastoral dos Bispos de Cabo Verde Testemunhas da fé, esperança e caridade para a transformação do mundo. Nela, deixamos uma palavra de esperança para o nosso povo e recordamos que: centro da vida eclesial, a Sagrada Eucaristia é sem dúvida, o mistério admirável da nossa fé.[5]
 

Votos de um bom ano pastoral, seja a nossa Igreja na sociedade, aquilo que a alma é no corpo: força vital e esperança! Maria, Senhora das Dores, Saúde dos enfermos e Mãe solícita, nos acompanhe com a Sua ternura e nos inspire o jeito de viver confiantes!

Ilha do Sal, 4 de Outubro de 2020 – Memória Litúrgica de S. Francisco de Assis

† Ildo Fortes
Bispo de Mindelo



[1] Cf. Papa Francisco, Carta Encíclica Fratelli Tutti, 55 (convido à esperança que «nos fala duma realidade que está enraizada no mais fundo do ser humano, independentemente das circunstâncias concretas e dos condicionamentos históricos em que vive. Fala-nos duma sede, duma aspiração, dum anseio de plenitude, de vida bem-sucedida, de querer agarrar o que é grande, o que enche o coração e eleva o espírito para coisas grandes, como a verdade, a bondade e a beleza, a justiça e o amor).
[2] Cf. Ibidem, 114.
[3] Cf. Ibidem 276, citando BENTO XVI, Carta enc. Caritas in Veritate, 11.
[4] Cf. Ibidem, 78.
[5] Carta Pastoral dos Bispos de Cabo Verde, Testemunhas da fé, esperança e caridade para a transformação do mundo (14 de Junho de 2020), 10.


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